quarta-feira, 29 de abril de 2020

Marcelo Sampaio - EntreVistas


Nos Conhecemos de muitos e longos carnavais.  Difícil apontar um acontecimento cultural em Campos dos anos 80 para cá, que Marcelo Sampaio de alguma forma não estivesse com sua presença marcante sempre provocativo e instigante em suas pertinentes colocações.  Defensor intransigente, para  criação de políticas públicas, para fomentação  e disseminação da arte e cultura em Campos.  Apaixonado pela cultura popular, principalmente o carnaval, é também um profundo pesquisador da música popular brasileira.

Marcelo Sampaio nasceu em Campos dos Goytacazes no dia 13 de julho de 1964, é professor de História e pesquisador de Cultura Popular. Mestre em Teoria das Ideias pela Unicamp e Doutorando na Formação da Identidade Cultural do Rio de Janeiro. Ator amador, julgador de desfiles de Carnaval, acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes, criador do Centro Cultural Marcelo Sampaio, diretor do Cineclube Goitacá sediado no Oráculo Espaço do Saber, colunista do jornal Ritmo Carioca, membro do Conselho Consultivo do Instituto Cultural Cravo Albin e presidente do Conselho Municipal de Cultura de Campos.


Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Marcelo Sampaio – Quando me dedico a criar qualquer projeto. Para mim o estado de poesia se instala sempre que crio algo porque sou extremamente visceral em tudo que faço.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Marcelo Sampaio –Vou ser muito injusto se tiver que escolher um dos inúmeros poemas que gosto, até porque este tipo de preferência depende também da fase que estamos vivendo. Dependendo do momento da nossa vida nos emocionamos com poetas e poemas diferentes.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Marcelo Sampaio –Como sou um apaixonado pesquisador da música popular brasileira considero o Vinicius de Moraes realmente genial. Até porque um poema que se preza tem que ter ritmo o que não falta nos versos dele, tanto que muitos ganharam melodias.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Marcelo Sampaio –A vontade de lutar por um mundo melhor em todos os sentidos. Meu principal objetivo como criador é contribuir para que as pessoas saiam das suas zonas de conforto e se posicionem contra tudo que seja injusto.


Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Marcelo Sampaio –Na verdade escrevi apenas dois, “Real-imaginário” em 1985 e “Amálgamas da memória” em 2017. E como vivo sempre planejando o que realizarei em seguida, acho difícil eu ter um livro ou outra coisa definitiva na minha vida no sentido de esgotar todas as possibilidades.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Marcelo Sampaio –Sempre! Como já falei na primeira resposta sou poético em tudo com o que me envolvo, desde uma corriqueira aula até numa palestra ministrada sem falar nos textos que escrevo...

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Marcelo Sampaio –Todos os poemas que escrevi surgiram de pedras no meio do caminho, fossem elas reais ou imaginárias. Afinal de contas o ato de escrever para mim sempre foi uma forma de resistir ao status quo estabelecido.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Marcelo Sampaio –Nunca fui bom nestes exercícios de futurologia e como um pessimista assumido ando muito descrente. Não acho que a Humanidade se dará conta de como tem sido desumana através dos tempos nem que respiraremos ares melhores.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Marcelo Sampaio –Por causa da minha estrutura familiar tive uma formação basicamente literária. Com dezoito anos o teatro entrou na minha vida e já trabalhando como professor a música e o Carnaval se tornaram mais do que essenciais para mim.


Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Marcelo Sampaio –É possuir um compromisso bem maior do que somente com as suas aptidões e habilidades. Não consigo reconhecer valor em uma manifestação artística se junto à sua qualidade estética não estiver um posicionamento crítico-social.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Marcelo Sampaio –Poderia ter me perguntado o que eu faria se só me restasse um dia.
Iria responder: que manteria minha rotina, pois como os meus amados bichos-filhos sou um animal de hábitos!

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Fábio Pessanha - EntreVistas



Nos contactamos,  a pouco, aqui mesmo pelo face. Eu que venho tendo manias de cogumelos azuis, me chamou atenção o título da sua coluna na Revista Vício Velho: palavra alucinógeno. Fui conferir, e lá encontrei uma série de colocações, sobre escrita poética. que vieram de encontro a uma série de inquietações que tenho a respeito. Outra coisa que me chama atenção na escrita do Fábio Pessanha é a busca de novos conceitos, novas palavras, carnavalhando "palavralmente" com ele mesmo diz a "bundassentalização de leituras".

 Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre suas pesquisas, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Assina a coluna “palavra : alucinógeno” na Revista Vício Velho. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens, Contempo e na própria Vício Velho.


Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Fábio Pessanha - esse tal estado de poesia é algo que me acomete desde quando não se sabe onde. tento estar em transe para ouvir o que me chega ao corpo. mas nem sempre é do jeito que quero. nunca é, na verdade. quando escuto uma palavra primordial que poderá desencadear imagens num poema, ou uma frase que me cause estranheza, recebo esses enigmas palavrais como posso.  aceito as imagens que aparecem. guardo-as. esses acontecimentos, embora pareçam rasantes místicos, são um estado constante de escuta. acredito que um poema, mesmo aquele que aparentemente chega pronto, precisa ser [re]trabalhado.  se acredito e defendo que a palavra é um corpo vivo-pulsante, minha postura é a da ressonância, quando tentamos ser uma diferença comum, um corpo uno em tensão. é um processo trabalhoso, ao qual retorno constantemente até considerar que um poema/ensaio/imagem esteja(m) pronto(s), seja lá o que signifique estar pronto.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Fábio Pessanha - não sei dizer… mas como sou palavralmente orgíaco, posso arriscar dizer que é aquele que me chama para um canto, a fim de travessias e suores.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Fábio Pessanha - embora seja também uma resposta difícil de se dar, mas até que consigo arriscar uma hipótese. o poeta que me trouxe a esse mundo da poesia de maneira radical foi o Manoel de Barros. sempre que volto a ele é como se fosse a primeira vez. não há medida que meça o impacto de seus escritos em mim. sem dúvida, uma grande referência em minha vida poemática e transpoemática também.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Fábio Pessanha - lá em cima falei que sou palavralmente orgíaco. então, volto a essa ideia. muita coisa fala no meu corpo quando entro em estado de escrita, e em muitas das vezes é difícil me concentrar. então, procuro ler outros poetas, isso costuma funcionar. gosto de pensar a escrita como maneira de diálogo. acredito que não há um texto feito exclusivamente por uma só pessoa porque uma só pessoa é em si a reunião de seus [quase] infinitos outros. há muita gente aqui dentro e essa multidão procura as multidões de outras leituras. essas leituras também podem ser musicais, quando me ponho a tocar violão, andando pelo meu apartamento, sem me desconectar do texto que estou escrevendo. não sei… talvez seja uma maneira de oxigenar minha escrita com outras referências ou experiências. e ultimamente, tenho até feito um ritual: tomo um café. um único café. sempre antes de escrever. hábito que adquiri durante a composição da minha tese de doutorado. agora isso faz parte de mim, do que escrevo. é meio bobo. mas é só isso mesmo.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Fábio Pessanha - tenho apenas um livro publicado, e nem é de poesia. tem a ver, mas não é. intitula-se A hermenêutica do mar Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013). este livro foi fruto da minha dissertação de mestrado em Poética (UFRJ), quando me debrucei sobre a obra desse importante poeta moçambicano. digo que foi fruto porque da dissertação até o livro, muita coisa mudou. tenho poemas publicados em diversas revistas, assim como um livro de poesia já pronto. mas estou esperando passar esse período pandêmico para dar início ao processo de publicação.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Fábio Pessanha - tudo que escrevo é desde o poético. a poesia é para mim uma habitação, um modo de estar no mundo. então, seja um ensaio, um artigo de teor mais científico, sempre entram umas rupturas, umas imagens que desfocam a seriedade do trabalho formal. é uma questão de jogo de cintura. cheguei a flertar com teatro e música durante meu doutorado, e antes também. é que para criar outros modos de pesquisa que não apenas a bundassentalização de leituras, quis deixar fluir outras possibilidades de diálogos, de experimentação corporal. por exemplo, em julho de 2018, apresentei na Sala Carlos Couto, do Teatro Municipal de Niterói, um tipo de peça meio sarau, portanto, uma “peçarau” (!!) chamada Diálogo inventado para uso dos pássaros, que foi a interlocução entre meus poemas e os do Manoel de Barros, e todas as músicas que compuseram essa trama foram autorais. tal apresentação integrou o projeto chamado “Roda de Novos Poetas”, organizado pela produtora cultural Teca Nicolau, e teve a atriz Tainá Pimenta interpretando os poemas do Manoel, além de também assinar a direção do espetáculo. isso porque o tema da minha tese foi a palavra poética, a partir da tensão entre as obras de Manoel de Barros e Paulo Leminski. a apresentação foi uma lindeza! e em dezembro de 2018  intitulei-me doutor em Teoria Literária (UFRJ), com a tese Manoel de Barros e Paulo Leminski: A palavra como experiência do poético, que espero publicar assim que possível.

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Fábio Pessanha - sinceramente, não sei. tenho lá umas desconfianças, mas não sou do tipo que escreve quando fica mal. se eu estiver na fossa, por exemplo, ficarei lá, tentando sair dela. mas dificilmente essa experiência se tornará matéria de poesia em mim. quase tudo que escrevo nesses períodos vai para o lixo.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Fábio Pessanha - nesse caso, prefiro ir pela prosa poético-filosófica de Clarice Lispector, e pensar na inter-relação entre o ovo e a galinha. penso que nessa história somos totalmente ovo. muito se fala em nos tornarmos pessoas melhores-pós-covid, mas não creio tanto nisso, caso se considere que seja um resultado imediato. por sermos ovo, quero dizer que nos colocamos para nos chocar, que a necessidade do isolamento pode ter nos deixado mais introspectivos e que algo pode ter sido plantado. no entanto, minha tendência é crer que mudanças desse porte levam tempo, ou seja, que toquem em nossa constituição como humanos atentos ao que nos cerca. depois de finalizada a pandemia, se tudo der certo, podemos ficar propensos a possíveis eclosões. nessa metáfora, seremos ao mesmo tempo a iminência da ruptura da casca e o futuro da galinha, com atenção para a necessidade do chocar. o que me faz lembrar também de Guimarães Rosa, quando numa clássica entrevista dada a Günter Lorenz, no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em 1965, ele diz: “Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer”. portanto, é uma questão de demora,  de nos demorarmos em nós mesmos, em nossa relação com o outro, seja o outro de fora – as outras pessoas – ou o outro que nos compõe em nossas outridades.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Fábio Pessanha - engraçado… fico relendo sua pergunta e só consigo pensar na potência do silêncio. trago muitos silêncios em mim, e acho que estes são meus maiores lugares. há momentos em que me sinto muito acadêmico. afinal, foi dentro da universidade em que mais me encontrei. mas, ao mesmo tempo, quanto mais eu me envolvia com poesia para além dos muros da academia, mas desta eu me distanciava. gosto de pensar num caminho do meio, morar na trincheira entre o acadêmico e o sei-lá-o-que-além-da-academia. por muito tempo, pensava em não dar aulas e só me envolver com pesquisa. mas isso começou a mudar quando comecei a dar cursos de extensão na Faculdade de Letras da UFRJ, já no final da minha graduação, sempre sob coordenação do meu orientador, claro. contudo, foi no meio do meu mestrado, também na UFRJ, lá por 2011, que comecei a estudar a poética de Manoel de Barros com mais atenção, e daí resolvi me jogar nela. então, a convite de uma amiga, propusemos os cursos de extensão que foram fundamentais para o que sou hoje. sem dúvida alguma, foi uma experiência radical e me fez perceber o quanto gosto de dar aulas/oficinas. então, dentro desses meus silêncios, acho que posso dizer que carrego muito do acadêmico, uma tribo com a qual tenho brigado muito internamente nos últimos tempos.

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Fábio Pessanha - não sei bem o que é ser poeta. há caminhos por onde posso ir, tratar de maneira mais filosófica, pensar nos gregos, na poesia de forma ampla, em seu sentido mais originariamente verbal. não sei... é como olhar de dentro do lugar onde estou, se bem que não poderia fazer diferente, já que não seria possível dizer de fora do meu próprio lugar. o que posso arriscar como resposta é que o poeta talvez seja alguém que tenha nas palavras sua força, que seja corpo com elas. tanto no âmbito escrito, quanto no falado. ser com a palavra a impossibilidade que temos como destino improvável. daí, em maior ou menor grau, milita-se pela poesia no sentido da entrega, do vigor de uma força um tanto indescritível que, tal como o silêncio, se extingue em sua enunciação. Leminski dizia que poeta não é só quem produz poemas, mas quem se deixa envolver pelo poético. então, nessa dimensão, talvez não seja um exagero dizer que um militante de poesia seja aquele que habita a própria existência, que olha pra si, que transborda seu corpo palavral no outro e que se assume como salto em seu abismo existencial.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

fFábio Pessanha - de cara, não faço a menor ideia… rsrs…  mas… hum... se me perguntasse o que ando fazendo agora, convidaria a todos para conhecer a coluna “palavra : alucinógeno”, que assino na Revista Vício Velho. depois de publicar uns poemas nessa revista, a Carolina Hubert, editora, me propôs um espaço onde eu tratasse de poesia. como estava no meio da escrita da minha tese de doutorado, vi nisso uma boa possibilidade de desanuviar minhas ideias, podendo escrever de maneira mais livre, experimental até… já que a tese me exigia bastante disciplina (ainda que o resultado da minha pesquisa tenha sido muito mais um trabalho poético do que acadêmico, conforme ouvi da banca durante minha defesa). aos poucos, a coluna foi chegando ao formato que tem hoje, como se os textos fossem pequenos ensaios, provocados por poemas. então, o que escrevo lá não são exatamente resenhas, embora encontremos certas características resenhísticas. prefiro pensar nesse espaço como lugar de incorporações verbais, onde as palavras me tiram para dançar, e eu simplesmente vou.
feito o convite, se alguém quiser passar lá para conhecer um pouco das minhas alucinações poemáticas, é só chegar aqui:


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Daniel Wachowicz - EntreVistas



Tenho a impressão que  o Daniel Wachowicz numa noite dos Artefatos Poéticos, criado pelo meu querido Cesar Augusto de Carvalho, depois tivemos vários encontros em noites de Poesia  na Patuscada, o Bar Café Livraria da Editora Patuá, o QG do  Eduardo Lacerda. Ali mesmo trocamos contatos e nos tornamos amigos  de face. Depois vieram outros encontros lá mesmo, na Patuscada, e os laços de amizade se estreitaram, hoje faço parte do seu grupo Encontro dos Malditos, que ele mantém no face, com a participação de vários poetas multifacetados.  

Daniel Wachowicz nasceu em Taboão da Serra (por ele chamada de Taboão das Trevas), é formado em Letras e atua como professor do estado de São Paulo. É o organizador do evento Encontro dos Malditos que teve sua primeira edição na noite de finados (02/11) no ano de 2019, um evento que celebra a poesia dark, mórbida e de influência gótica. Publicou os livros Convite ao abismo (Multifoco, 2014), As Musas estão esmagadas no asfalto (Benfazeja, 2016), Cosmopeles (plaquete independente, 2017), Tempos de penhasco (Patuá, 2018) e a plaquete X (Primata, 2018) e Masmorra (Patuá, 2019).

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Daniel Wachowicz  - Acredito que seja uma mistura das leituras que faço, sejam elas de poesias, contos, romances, textos sobre artes visuais, etc, assim como os filmes que assisto e as músicas que ouço. Ou seja, tudo aquilo que me toca a alma e gera um êxtase impulsiona o meu processo criativo, que é bem desregrado. Não tenho nenhum tipo de disciplina para escrever, deixo as ideias fluírem e vou depois adequando as palavras e expressões para que eu consiga alcançar os efeitos de sentido que quero.

Artur Gomes - Seu poema preferido? Próprio. Ou de outro poeta de sua admiração?

Daniel Wachowicz - Um dos poemas de minha autoria por qual tenho mais estima, chama-se Arte Poética. É um soneto em versos decassílabos no estilo clássico (sáficos e heróicos) em que consegui, de uma certa forma, concretizar na linguagem a própria construção poética. Sempre tive muito interesse em metalinguagem e considero esse poema como um dos mais perfeitos que consegui fazer com essa proposta. Ele está em uma plaquete que fiz chamada Cosmopeles (Independente, 2017) e também integra meu livro Tempos de Penhasco (Patuá, 2018).

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Daniel Wachowicz  - Sem sombra de dúvidas o Charles Baudelaire. Considero-o a base de tudo para mim, seja em meus interesses poéticos e estéticos. Os textos dele sobre arte moderna instigaram meu interesse por pintura, escultura, performance, às óperas de Richard Wagner e me levaram a buscar posteriormente as vanguardas do século XX, em especial as Surrealistas e Dadaístas.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Daniel Wachowicz  - Na maior parte das vezes que escrevo ou estou lendo ou ouço música e isso geralmente impulsiona o insight para escrever e geralmente a ideia jorra com muita intensidade.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Daniel Wachowicz  - Creio que a obra completa de Charles Baudelaire até hora gera um reflexo no que escrevo.

Artur Gomes - Além da poesia em verso já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Daniel Wachowicz  - Já fiz alguns projetos musicais com minhas poesias, com uma ideia de heavy metal experimental e também escrevo prosa poética, porém com pouca intensidade, não tenho um volume tão grande desse tipo de texto.

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Daniel Wachowicz - Creio que todo o poema seja uma pedra no meio do caminho se pensarmos na questão da escolha das palavras e na organização de sentido para formar o todo. Acho que todos os meus poemas foram escritos nesse contexto, pois reflito muito sobre a escolha de cada palavra para formar cada verso e toda a obra tem seu desafio a ser superado e creio que escrever um poema é exatamente isso.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Daniel Wachowicz  - Acredito que os hipócritas que odeiam a humanidade passarão, entre eles o Bolsonaro com sua política genocida, que mata tanto fisicamente como culturalmente. Esse tipo de gente não passará.

E creio que nós, os artistas, passarinho, para parafrasear  Quintana. A arte sobreviveu a todo o tipo de pandemia na história da humanidade e agora é a nossa vez de mantermos essa chama acesa que as artes oferecem ao mundo.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Daniel Wachowicz  - Desde a adolescência que gosto de heavy metal e desde aquela época simpatizo com o aspecto visual e continuo sendo um fanático por bandas como Judas Priest, Dio, etc. Embora não me considere mais como pertencente a algum grupo, mantenho o visual dark, metal como parte de minha personalidade.

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Daniel Wachowicz  - O que me faz escrever é o amor, e tão necessário quanto respirar e, para mim, ser poeta é isso. A ideia de militância para mim é ser honesto e sincero com meu estilo. Manter um estilo, construir uma poética e não traí-la é o grande engajamento.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Daniel Wachowicz Talvez, como a pandemia influencia meu processo de criação?

Resposta - Muitos artistas nesse momento se indagam sobre isso. Estamos passando por um momento de incerteza quando a segurança da vida e isso tem me feito refletir sobre muita coisa e, devido a essa fixação de pensamento, já produzi alguns poemas que se relacionam com toda essa atmosfera.

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Marcelo Mourão - EntreVista



Marcelo Mourão é outro poeta que comecei a ter contato através do face, e a partir de 2018 nos conhecemos pessoalmente quando comecei a frequentar o Sarau POLEM, onde fiz lançamentos no Rio de Janeiro do meus livros Juras Secretas em 2018 e Pátria A(r)mada em 2019. Foi no POLEM, na Taberna de Laura, que surgiu a ideia da Balbúrdia Poética, nome sugerido por Sady Biachin. Além de poeta, escritor e crítico literário Marcelo Mourão é um grande ativista e estudioso da produção poética  carioca dos anos 80, seu livro Rotas e Rostos é um bom raio x dos movimentos poéticos no Rio de Janeiro nessa década.  Uma das grandes edições do POLEM em que estive presente, foi exatamente sobre a poesia dos anos 80 realizada em outubro de 2019 na Taberna de Laura, em Copacabana - Rio de Janeiro.

Marcelo Mourão é professor graduado em Letras (Língua Portuguesa e Literatura), pós-graduado em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estácio de Sá (Unesa) e em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2020, tornou-se mestre em Literatura Brasileira, pela UERJ. É também poeta, escritor, pesquisador, crítico literário e produtor cultural. É o criador, produtor e apresentador do sarau POLEM, iniciado em 2008 no Leme (RJ). É, desde 2019, o diretor de comunicação da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ). Há textos seus publicados em várias antologias, periódicos literários, sites e revistas acadêmicas, do Rio e de outros estados brasileiros. Em 2018, organizou a coletânea comemorativa POLEM 10 anos, lançada pela Ventura editora. Possui quatro livros solo editados antes deste: O diário do camaleão, poesia (2009); Temas em literaturas de língua portuguesa: os diferentes olhares, crítica literária (2015); Máquina mundi, poesia (2016); e Rotas e rostos: questões de literatura brasileira, crítica literária (2019). 

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Marcelo Mourão - Antigamente, acreditava que era preciso esperar a inspiração chegar. Hoje em dia, depois de dez anos de dedicação aos meus estudos literários e, principalmente, praticando bastante a minha própria literatura, resolvi experimentar o que muitos poetas fazem: escrever todos os dias, com disciplina, com horários fixos, sozinho em meu escritório, tendo inspiração ou não. E, olha, tem dado muito certo. Tenho escrito muitas coisas interessantes. Claro que também sempre surgem escritos ruins no bojo da produção. Porém, é preciso, depois, saber filtrar e publicar somente aqueles que alcançaram bons resultados finais, bons índices de literariedade.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Marcelo Mourão - Meu? Se for meu, possuo bem mais de um preferido. Fica injusto citar apenas um. Então acho melhor nem mencionar. Se for poema de algum outro autor, aponto aqui mais de um também: “Meu pai” e “Flor amarela”, de Ivan Junqueira e “Poema de sete faces” e “Morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade. Porém, quero deixar aqui registrado que há ainda muitos outros que amo, de vários outros autores.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Marcelo Mourão - Muitos também! (Risos)
Vamos lá: Carlos Drummond de Andrade, Ivan Junqueira, Fernando Pessoa, Charles Baudelaire, Augusto dos Anjos, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Vladimir Maiakóvski, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Hilda Hilst, Paulo Leminski, Roberto Piva,  João Cabral de Melo Neto e Álvares de Azevedo. Chega, né? (risos) Melhor parar por aqui. Mas, o Drummond é, com certeza,aquele que mais me influencia, embora ame todos esses outros também.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Marcelo Mourão - Antigamente, antes de me aprofundar nos estudos literários, uma emoção, seja ela qual fosse, bastava para ser o gatilho queria disparar a vontade de escrever. Hoje em dia, mais maduro como artista, concordo com João Cabral de Melo Neto e acredito, assim como ele, no planejamento metódico do poema, em arquitetá-lo minuciosamente, desde o recorte de seu tema até a sua última revisão, seu último retoque de correção. É preciso acrescentar que todos os poemas precisam ser trabalhados.  Nenhum texto nasce sem precisar de consertos. Uns até surgem mais próximos do ideal e outros, pelo contrário, precisam de muito suor, de muito esforço para ser considerados prontos. Bilac estava certo: é um trabalho resignado (“monástico”, segundo a descrição dele em certos poemas), de ourivesaria. É uma difícil artesania, como costumo definir ou, se você preferir, é poiésis, como gostavam de intitular os gregos antigos.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Marcelo Mourão -  Por enquanto, o Máquina mundi, meu segundo livro de poemas. É, com certeza, a mais madura das duas obras poéticas que lancei até hoje. Ele ganhou o prêmio de livro do ano/2016 na União brasileira de escritores (UBE-RJ) e foi alvo de mais de 12 resenhas de críticos espalhados pelo Brasil todo. Foi um grande sucesso de público e crítica. Porém, pelo que estou sentindo, o terceiro, que já está em fase avançada de produção, me parece que irá superar o Máquina em termos de amadurecimento artístico e profundidade de temas.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Marcelo Mourão - Sim, exercitei. O Máquina mundi tinha poemas de todos os tipos, das mais variadas formas fixas e não-fixas. Nele, coloquei sonetos tradicionais, sonetos pós-modernos, cordel, redondilha maior, redondilha menor, vários haicais, versos livres, versos brancos, mas também pus poemas visuais, figurativos, concretos e até dadaístas só com imagens. A proposta dessa obra era justamente ser aquilo que o saudoso mestre Pedro Lyra definiu tão bem em sua crítica ao livro: “um imenso sincretismo pós-moderno”. Tinha de tudo ali. Em breve, quero experimentar fazer vídeopoemas e poesia sonora.

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Marcelo Mourão - Nossa... Muitos. Inclusive alguns que trabalhavam justamente a metáfora da pedra, mesmo sem ser a do caminho, consagrada por Drummond. Não sei citar um só... Talvez o “Língua de fora”, que é do meu primeiro livro, “O diário do camaleão”.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Marcelo Mourão - Posso dizer que muitos passarão e tantos outros passarinho. Os fascistas, os pseudo-poetas, os pseudo-artistas, os políticos sem nenhum lume, os homens e mulheres de pouquíssima sabedoria e valor, enfim, esses e muitos e muitos outros passarão batidos. Os de grande valor, seja em qual área for, como sempre, são os que irão ficar, os que irão voar, como passarinhos, rumo à eternidade, à glória, à permanência, que paira acima do tempo.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Marcelo Mourão -  A minha tribo é a dos poetas que cantam o social, o político e os sentimentos também. Adoro amalgamar poesia com história, sociologia, filosofia, antropologia e psicologia. Minha tribo é a dos poetas que leem compulsivamente e escrevem com muita dedicação e amor. Eu sou, por formação, professor de História, de Língua Portuguesa e de Literatura, então essas bases teóricas explicam praticamente tudo sobre a minha escrita e o meu ativismo político-poético.

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Marcelo Mourão - Não gosto do termo “militante” para definir um artista. O poeta Karlos Chapul  certa vez escreveu: “Não milito. Militar me limita”. Esses versos resumem bem o que penso. Prefiro a palavra “ativista”. Eu me mantenho ativo ativando consciências, chamando a atenção dessas mesmas consciências para os encantos da “Senhorita Poesia”. Sigo incansavelmente ativando alguns botões na alma de quem me ouve ou lê e aí sim nasce no leitor/espectador a paixão pelo texto. Militar não. Militar me lembra muito a ideia do proselitismo, da pregação para tentar trazer adeptos para o nosso lado, lutar para convencer as pessoas que a poesia (e a arte em geral) é uma ambrosia a ser saboreada. Não quero convencer nem impor nada a ninguém. A arte encanta ou não.

Não preciso me esforçar para que ela conquiste adeptos ou ganhe espaços, ela faz isso por si mesma. Não sou um soldado dela, a serviço dela, obediente a ela. Ela, em alguns poemas meus, é descrita como uma namorada, uma amante, uma senhorita, uma mulher.  Será que forçar uma mulher a querer você é correto? Claro que não, né? Tem que surgir naturalmente a emoção que te prende a ela. Então, sou muito implicante com a expressão “militante de poesia”. Não milito, não. Militar me limitaria e limitaria a poesia também. Ser um ativista de arte e cultura (e aí a poesia está nesse contexto incluída) é aquilo que descrevi ali em cima. É nisso em que acredito.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Marcelo Mourão - Se, além de poeta, eu trabalho com outros gêneros literários?

Resposta - E eu te respondo: Sim. Já escrevi 5 livros de crítica literária (só dois, até agora, foram publicados) e um romance (ainda no prelo). Em breve, vou começar a me dedicar a lançar biografias de poetas e de grupos e movimentos poéticos, todos estes dos anos 1980, daqui do Rio de Janeiro, que são objetos do meu campo de pesquisa no mestrado e no doutorado, que é a Poesia Verbalista Urbana carioca e oitentista.


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