sábado, 25 de julho de 2020

Bernardo Caldeira - EntreVistas


Conheci Bernardo Caldeira na noite de 7 de novembro de 2019, no auditório do Liceu de Humanidades de Campos onde foi realizado o XXI FestCampos de Poesia Falada. Ele participou  do Festival como intérprete da poesia Casulo em Chamas, de Nayara Valle. Era uma noite de muita chuva, e os dois entraram na sala completamente molhados. Foram 3 dias plenos de poesia, e a partir daí esse casal de mineiros mora no meu coração.

Bernardo Caldeira, natural de Belo horizonte, onde reside, é graduado em Psicologia e Pós-graduado em Filosofia. Tem dois livros de poesia publicados: Vozes do Silêncio (Benvinda, 2016) e Estilhaços (Urutau, 2019). Atua como psicanalista, professor, baterista e tradutor.

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Bernardo Caldeira - Eu não saberia explicar muito bem, até porque me parece que é justamente essa coisa – que as pessoas costumam chamar de estado de poesia ou inspiração – aquilo que há de propriamente místico na criação poética: não é possível saber muito sobre de onde, como ou porque ela vem. No meu caso, não sou desses que sentam e escrevem quando bem entendem, já cientes do que querem fazer; as palavras são caprichosas comigo e têm seu próprio tempo de me visitar. Mas de repente alguma coisa acontece e elas surgem, meio que naturalmente, como um vento sussurrando em meu ouvido. Naturalmente, não se trata de algo passivo, é preciso apontar a antena da raça na direção desse sinal, meio terrestre, meio alienígena. Claro que muitas vezes a mensagem escapa, por vários motivos, quer porque não conseguimos traduzí-la, quer porque ela nos pega no contrapé – sem lápis, no meio da rua, cruzando o sinal. Aí ela passou e ficamos a caçar borboletas. O poema tem que ser pego no pulo.

Artur Gomes - Seu poema preferido? Próprio. Ou de outro poeta de sua admiração.

Bernardo Caldeira - Me parece que qualquer um que diga que tem um poema preferido, seja próprio ou de outro, empobrece sua experiência poética, pois nenhum poema em particular é capaz de abranger por inteiro o escopo inesgotável da poesia. De modo que o que se pode ter são poemas, no plural, aos quais se retorna com maior ou menor frequência, seja para fruição, para alento, para estudo, etc. Nesse caso, eu diria que sempre retorno aos meus cânones particulares – como "Tabacaria", de Álvaro de Campos; o poema XVIII de "Canto de Mim Mesmo", de Walt Whitman; "Platão ou o porquê", Wislawa Szymborska, entre muitos outros.

Quanto a um poema meu, a título de exemplo, tenho tido afeição pelo "Névoa Negra", que dediquei à Amanda Audi e ao Glenn Greenwald, ambos da revista Intercept, num contexto bem específico.

Reproduzo, pois ele é curto:

Enquanto atônito eu vejo
o sol dia a dia morrer
pergunto-me: que horas a noite
começa? O azul desbota
sobre nossas cabeças
e como uma névoa negra
aos poucos a escuridão
se decanta. Mas onde se encontra
a lápide da luz, a inscrição inequívoca
do seu suicídio? No corpo de Vênus?
Não pode ser: quando ele nasce
o céu ainda é verde
e me engana. A cada segundo
pergunto ao poente: é noite?
é noite? – tentando prever
o presente. Enquanto velo
o ponteiro, eu pisco os meus olhos
e ao abrí-los, a noite se fez
em silêncio.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira? 

Bernardo Caldeira - Seguindo o mesmo princípio da resposta anterior, não posso dizer que eu tenho um só poeta de cabeceira; tenho aqueles que sempre andam comigo – talvez eu deva dizer que eu é que ando com eles – e aos quais sempre retorno; além dos citados acima, gente como Drummond, Bandeira, Brecht, Maiakóvski, Rilke, Rumi, Akhmátova, Meireles, Hilst, Horácio, Li Bai também estão frequentemente na minha cabeceira.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Bernardo Caldeira  - Uma pedra de toque é um instrumento para se testar ligas metálicas, usado especialmente para saber se o material em questão é ouro e auferir sua quilatagem. Portanto, tem mais a ver com avaliar o que já foi criado do que propriamente com a criação. Nesse sentido, minhas pedras de toque são bastante rudimentares; não sou crítico, sou poeta.

Quanto ao impulso criativo, ele surge de vários lugares distintos, uma palavra que ressoa, um poema que convoca, uma notícia, um pensamento, uma sensação... o que quer que me toque é uma pedra de toque.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Bernardo Caldeira - Em primeiro lugar, não tenho uma obra; tenho dois livros publicados, Vozes do Silêncio (Benvinda, 2016) e Estilhaços (Urutau, 2019) – o primeiro eu tendo a renegar, por exceção de um poema ou dois, literalmente. Em segundo lugar, acho "definitivo" uma palavra muito pesada; nada é definitivo. Prefiro dizer que há livros que marcam.

Artur Gomes - Além da poesia em verso  já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Bernardo Caldeira - Bem antes de começar a escrever poemas, tive um impacto enorme com a obra de Joyce, especialmente o Finnegans Wake, na medida em que ela levava a até suas últimas consequências o disparate completo que é a linguagem. A partir desse encontro, durante algum tempo escrevi textos que emulavam uma escrita automática e associativa mais na vertente da pura materialidade sonora e visual da palavra e da sintaxe do que da virtualidade espiritual da semântica; isso porque, como aprendemos com Freud, o significado é sempre da ordem do engodo religioso, da ontologia – e eu queria captar o real "livre do pecado do sentido" (como certa vez versei) que eu supunha manifestar-se na escrita de Joyce. Porém, com o tempo compreendi que tampouco era ao fazer do sentido um pecado que eu tocaria o real; e foi assim que cheguei à poesia, como um ateu fervoroso convertido em místico porque acreditava demais na inexistência de Deus.

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Bernardo Caldeira - O poema drummondiano me parece dizer, justamente, que ninguém escreve um poema se não há uma pedra no meio do caminho: algo que se interpõe entre o poeta e o mundo – um espanto, um amor, uma dor –, na medida em que o mundo é a ordem natural das coisas. Quando ousamos perturbar o universo ("Do I dare disturb the universe?", como canta o pássaro Eliot) a flor do poema se abre no meio da própria pedra.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Bernardo Caldeira - Ao que tudo indica, mais cedo ou mais tarde, os próprios passarinhos passarão. Mas não aposto todas as minhas fichas nisso. O mundo tem lá suas reviravoltas.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Bernardo Caldeira - Não tenho tribo; não pertenço sequer aos que não têm tribo. Sou marxista nesse aspecto: não faço parte de clube que me aceita (Marx aqui é Groucho, bem entendido).

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Bernardo Caldeira - Acho que talvez seja insistir para que a palavra seja um meio de transformar o mundo, e não de reiterá-lo; fazer dela um instrumento de potência, mais do que um instrumento de poder.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Bernardo Caldeira - Não sei. Mas aconteceu que enquanto respondia a estas perguntas acabei fabricando um poema, que dedico a você – pois, sem elas, eu jamais o teria feito; de modo que você é seu coautor, e deve por isso ser creditado. Segue:

MAPA
Para Artur Fulinaíma

Eu venho de muitos lugares.
Sou feito de entroncamentos
e bifurcações. Não sou um caminho
sou todo um mapa: venho
de todos os lados, vou
para todas as direções.
Vejo tribos pela estrada –
a nenhuma pertenço; tampouco sou parte
do rebanho das ovelhas desgarradas.
Percorro aldeias como
um visitante de outro mundo – eu
que não tenho mundos, tenho somente
um coração. Dos povos que encontro
eu colho os frutos e deixo sementes
para todos aqueles que amei. Porém
o sol me acorda e eu sigo em frente –
levando nos pés as raízes
que pelos cantos da Terra
eu criei.



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sábado, 18 de julho de 2020

Nuno Rau - EntreVistas


Meu primeiro contato com Nuno Rau foi através do facebook, em 2019, estava naquele momento envolvido com a produção da primeira edição da Balbúrdia Poética, que foi realizada na La Taberna de Laura, quando ainda estava situada em Copacabana. No face já tínhamos um grande número de amigos e amigas comuns, entre elas Wanda Monteiro que me sugeriu convidar o Nuno que compareceu e além da leitura de vários de seus poemas, nos brindou ainda com uma leitura, de uma sua tradução para um poema de Jorge Luiz Borges. Desde então acompanho diariamente, suas publicações no face e na Revista Mallarmargens, e tenho o grande prazer de contar com um  texto escrito por ele  para a orelha do meu livro  O Poeta Enquanto Coisa, que será lançado pela Editora Penalux ainda este ano.


 Nuno Rau, arquiteto, professor de história da arte, tem poemas em diversas revistas literárias, e nas antologias Desvio para o vermelho, do Centro Cultural São Paulo, Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Publicou o livro Mecânica Aplicada, poemas, finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura. Ministra oficinas de poesia no Instituto Estação das Letras e é coeditor da revista mallarmargens.com

Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Nuno Rau - Não é uma resposta simples, acho, e ao mesmo tempo é uma inquietação de muitos poetas uma possível resposta a essa questão, talvez pela vontade de trazer o processo ao domínio da mão (ou do pensamento, que é a mesma coisa). O fato é que esse estado de poesia, pra mim, se assemelha a veios subterrâneos de minério, ou talvez seja melhor imaginar lençóis freáticos, esses rios subterrâneos, que são formados pela água da chuva que penetra o solo e vão escoando pelo interior das camadas de solo até encontrarem um local para a expulsão da água, que pode ser uma nascente. As nascentes seriam os poemas, as camadas de terra seriam a nossa mente, com parte consciente (a superfície) e partes inconscientes (o subsolo). De tudo que observei até hoje, os poemas, pra mim, vão se formando deste modo, a realidade enviando estímulos (fatos, problemas, inquietações, admirações, tristezas, alegrias, que são, reunidos, a chuva que forma os lençóis subterrâneos), e a mente parece ir processando até que, por algum motivo, o poema eclode. A partir daí entra a operação de trabalho sobre essa eclosão, que é a carpintaria do poema, é trabalho, porque essa eclosão é como se fosse apenas um pequeno fio. Benjamin disse que “quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava”; para o poema vale a mesma ideia.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Nuno Rau - Teria que citar mil poemas aqui, tenho toneladas de poemas preferidos. Mas pra resumir a três, de poetas que já não estão presentes: Elegia 1938, de Drummond, um soneto genial de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos chamado Regresso ao lar, e o excerto 113 de Childe Harold, o longo poema de Lord Byron. Mas esses são apenas três exemplos de poemas aos quais retorno por afeto, ou para aprender/reaprender.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Nuno Rau - Minha cabeceira é um baile funk de poetas. Tem os que mencionei acima, Drummond, Pessoa, Byron, e também Borges, Emily Dickinson, Ana C., Waly, Murilo Mendes, Roberto Bolaño, Cacaso, Piva, João Cabral, Jorge de Lima, Sophia Andresen, Jorge de Sena, Helder, é muita gente, eles fazem um barulho enorme principalmente à noite, o batidão dos versos invade a madrugada e só me deixa dormir quando a lua já vai adiantada no seu curso. De todo modo falo aqui só dos poetas mortos, porque se fosse falar dos vivos ia acabar cometendo algum esquecimento imperdoável, e já tenho perdões demais a pedir por aí.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Nuno Rau  - Qualquer coisa pode ser o estopim de um poema.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Nuno Rau - Só tenho por enquanto um livro publicado, o Mecânica Aplicada, que saiu em 2017, ainda que tenha mais três livros (quase) prontos na gaveta (no HD), e outros dois ou três em processo. Então não posso dizer que tenho uma obra, seria uma pretensão e um exagero. Aliás, quando vejo amigos e colegas falando de “suas obras”, penso sempre naquele poema de Ricardo Reis/Fernando Pessoa, me identificando muito:

Sim, sei bem/ Que nunca serei alguém/ Sei de sobra/ Que nunca terei uma obra”.

Fora isso, não acredito em coisas definitivas, é tudo sempre provisório, e num contexto contemporâneo nossas importâncias individuais se aproximam do zero – o grande barato é a conversa, a interação com coletivos que nos alimentem.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Nuno Rau - Além de poesia, gosto muito de fazer letras para canções. Tenho alguns parceiros que me mandam melodias, a melodia é um exercício da forma fixa, como o soneto e a terza rima, e fazer as palavras conversarem com as notas de uma canção, extrair sentido não só das palavras, mas das sílabas ligadas a certas notas, é uma experiência muito interessante pra quem faz. Tenho um ou outro poema em prosa, que é uma outra forma de expressão bem diferente, mas confesso que gosto da expressão que se obtém pela versura, pelo enjambement

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Nuno Rau - Acho que todo poema é um indício de que houve, ou há, uma pedra no caminho. O leitor é o detetive (para dizer como Bolaño) que poderá desvendar os indícios.  Nesse sentido, todo poema deve ser uma pedra no caminho do leitor também. Me interessam os leitores que percebam que um poema tem que ser lido e relido, e às vezes trelido, para que se percebam dele as várias camadas.

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Nuno Rau - Acho que todos vamos passar, e no fundo isso não tem lá grande importância, já que é um dado incontornável. Como disse alguém que não lembro (talvez eu mesmo), a posteridade sempre chega tarde demais, quando chega. Pensar nisso é deixar de explorar todas as possibilidades do presente, e a vida acontece no agora.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Nuno Rau - Não sei se tenho uma tribo, sequer tenho uma geração. O que seria a minha geração é, hoje, um grupo de poetas que têm “uma obra”, porque começaram a publicar e interagir muito antes de mim (e talvez não erre quem disser que são melhores que eu). Me perdi no meio dos embates da vida em canteiros de obras, pranchetas de desenho, esperas de repartições públicas, e entre esses espaços os trajetos em metrôs, ônibus, automóvel sempre com um livro aberto nas mãos; viver é uma aventura complexa, intensa, conturbada, às vezes até violenta, e fiquei ruminando a escrita de forma isolada dos 15 aos 45 anos.

Nessa idade comecei a descobrir que a poesia e a literatura são atividades sociais, na qual a conversa com os pares é uma parte significativa do processo, uma parte que pode ser boa ou ruim, a depender do modo como você a conduz. Mesmo naquele momento, aos 45 (e com uns dois ou três livros organizados no HD), fiquei pisando no terreno devagar, e levei ainda nove anos pra colocar um primeiro volume de poemas na rua. Nesse meio tempo fui desenvolvendo afetos por pessoas, e tenho hoje, acredito, amigos de várias idades, dos que vieram antes de mim, cronologicamente e editorialmente, e dos que vieram depois, mas não vejo esse círculo como uma tribo – e sou menos ainda afeito a milícias de defesa de territórios simbólicos da poesia contemporânea, ou lotezinhos no Alphaville da posteridade. Meu lance é aprofundar os afetos sem qualquer viés utilitário.

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Nuno Rau - A pergunta é muito interessante, porque toca na questão da escrita poder ser (ou não) contemporânea de seu próprio tempo, e isso é muito menos óbvio do que pode parecer. Do que observo, há muita escrita por aí que não expressa qualquer relação com sua contemporaneidade. Fico com Agamben, que diz que a contemporaneidade é uma relação singular com o próprio tempo, entre aderência e afastamento, ou uma dissociação em paralelo a um anacronismo.

Quem coincide muito com sua própria época não é contemporâneo porque, por isso mesmo, não consegue ver em perspectiva. Ele fala também, citando um poema de Osip Mandel'stam, que o poeta deve fazer colidirem o tempo de sua vida individual com o tempo histórico. Pra mim a poesia seja talvez isso, essa conversa cheia de atrito entre o micro de nossas vidas e o macro da História.

A História, as camadas dos tempos históricos, seus apagamentos, suas fissuras, seus traumas me interessam muito. Isso pra mim define a poesia que me interessa. A questão das formas fixas, a contemporaneidade das formas fixas, pra mim esse é o ponto quando se fala delas como uma das possibilidades à mão de quem escreve: como escrever um soneto de tal forma que ele seja absolutamente contemporâneo?  Mas ando cada vez mais tentado a assumir que não existem formas fixas, nenhuma forma é fixa realmente, a depender de como utilizemos.

Quanto a ser militante de poesia, penso que não seja necessário a um poeta se lançar nesse embate, que por vezes traz sequelas, embora seja útil para o campo que haja quem milite. Pra mim, que compreendi a potência da poesia enquanto prática social, num sentido amplo, é muito enriquecedor poder criar zonas de contato e zonas de afeto com outras pessoas que escrevem. Isso pode aumentar ou diminuir a perspectiva que Agamben menciona. Cabe a cada um fazer suas escolhas, dentro de suas perspectivas de mundo e suas susceptibilidades.

Artur Gomes - O que representa para você a Revista Mallarmargens?

Nuno Rau - Mallarmargens tem muitos sentidos pra mim, e acho que a palavra sentido seja, provavelmente, a palavra com que mais me embato, a mais difícil. Que sentidos seriam esses? O primeiro é o fato de que firmamos, nesses mais de oito anos de estrada, a marca de uma revista plural, democrática, inclusiva. Quando começamos, das revistas que tinham projeção nacional (ou ao menos destas as que eu conhecia), só a Cronópios e a Germina tinham essa linha, não se limitando pelas premissas estéticas dos editores, nem por zonas de contato (a Diversos Afins já existia, mas, por limitações minhas eu não conhecia). Só que Cronópios tinha acabado. Então entramos num momento em que havia uma necessidade de espaço que as demais não atendiam, em face de uma imensa produção de qualidade rodando em blogs e no Facebook. Foi nesse contexto que publicamos desde a menina de 15 anos que mandou poemas de uma potência inacreditável, completamente desconhecida, até membros da ABL, passando por todos os tipos de poéticas e por todas as gerações.

Nossa única baliza era e é qualidade, o que nos impõe um exercício diário de perceber a qualidade para além de nosso entendimento da poesia, de nossas premissas estéticas particulares. Uma coisa bacana é que depois de nós surgiram e surgem outras revistas que têm a mesma pegada, ótimas revistas, e sempre nos alegra quando alguém aponta no horizonte de publicações, a poesia precisa disso.

O outro sentido é a prática do coletivo, somos sempre um coletivo, há sempre negociações, podem haver atritos, mas vamos aprendendo com todos os eventos. Há que ter alguém que puxe pra si a responsabilidade da palavra final, em alguns momentos, mas o ideal é quando o coletivo interage de forma plena. Um terceiro sentido importante da revista é que estamos num lugar privilegiado de observação da produção contemporânea, por tudo que recebemos, lemos, pelas interações que fazemos, e isso apura – ou assim espero, sempre – o olhar crítico. Existem muitos outros sentidos, ainda.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Nuno Rau - O mundo faz algum sentido?  Não.

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quinta-feira, 16 de julho de 2020

EntreVistas - Lisa Alves


Na EntreVistas, que fiz com a Cinthia Kriemler, ela cita um vídeo com poema de sua autoria produzido pela Lisa Alves, (Molotov Produções), fui conferir, gostei e convidei  a Lisa para este bate papo que segue.

 Lisa Alves (1981, MG) é escritora e videoartista, atualmente reside no Rio de Janeiro. Escreve para a revista literária La Ninfa Eco (Oxford, UK) e  coedita a Liberoamerica (Espanha). Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Espanha, Portugal, Moçambique, Inglaterra e Estados Unidos. Tem poemas publicados em onze antologias lançadas no Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha e País Basco. É autora de Arame Farpado, 2ª. Edição (Penalux, 2018).

Artur Gomes -  Como se processa o seu  estado de poesia?

Lisa Alves - Meu estado de poesia é o tal sentimento do mundo, muitas vezes inquietante, chega a vazar e dar forma a outra criatura que pode ser um poema ou absolutamente nada. Também gosto do estado de poesia em silêncio ou apenas imagético onde o reino das palavras só habita se for realmente necessário.

Artur Gomes - Seu poema preferido? Próprio. Ou de outro poeta de sua admiração.

Lisa Alves - explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco me levando.

Alejandra Pizarnik da obra Árbol de Diana
(Trad. de Nina Rizzi)

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.

(Possibilidades, Wisława Szymborska, em “Poemas”; tradução de Regina Prazybycien)


Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Lisa Alves - Já tem anos que me pego voltando ao Drummond. Parece uma relação abusiva. Porém, desde 2011 estou em um relacionamento aberto com a Wislawa Szymborska.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que a impulsione para escrever?

Lisa Alves  - Gosto de ouvir música.

Artur Gomes -  Livro que considera definitivo em sua obra?

Lisa Alves  - Só lancei um livro que foi o Arame Farpado. Espero que nem o Arame Farpado e nem o próximo sejam definitivos.

Artur Gomes - Além da poesia em verso  já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Lisa Alves  - A poesia é o ritmo e a alma da prosa e dos meus experimentos com o audiovisual. 

Artur Gomes Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Lisa Alves  - Todos. Sempre tenho uma pedra no meio do caminho.

Artur Gomes Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Lisa Alves  - A nossa espécie não passará ilesa, disso eu tenho certeza. Uma pandemia é algo que movimenta o mundo: em poucos meses a economia mundial mudou, as prioridades mudaram, a forma de comunicação mudou e sinto que esse movimento de mudanças continuará. Já até se falam em novas pandemias.

Artur Gomes Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Lisa Alves - Eu me identifico mais com a ideia da escritora sem pátria Taye Selasi que se diz cidadã dos mundos. Assim me sinto: uma cidadã dos mundos.

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Lisa Alves  Não sei e não acredito em nenhuma resposta para essa pergunta. Somos tão diversos.

Artur Gomes Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?


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domingo, 12 de julho de 2020

Beth Brait Alvim - EntreVistas



Beth Brait Alvim, é uma amiga de face já há alguns anos, venho acompanhando atento a sua produção poética suas performances e  suas atividades com a escrita de uma forma geral. Em 2019 na cia do querido parceiro poeta e amigo Pedro Tostes, tive o grande prazer de conhecê-la, pessoalmente, numa das edições do Sarau da Paulista, na Casa das Rosas, produzido  pelos queridos amigos poetas Cesar Augusto de Carvalho e Rubens Jardim.


Beth Brait Alvim, de São Paulo, é graduada em Letras pela FFLCH da USP; pós-graduada em Ação Cultural pela ECA da USP e mestre pelo Programa de Integração da América Latina da USP, com o tema: “Desvelando uma atitude poética para o mundo contemporâneo: experiências com poesia em Diadema e Catamarca". Recebeu prêmios, e tem poemas traduzidos para o espanhol e francês. Tem contos, crônicas e poemas em antologias nacionais e internacionais, além de ensaio, artigos e prefácios. Foi contemplada com bolsa de especialização profissional pelo Programme Courants du Monde, França.

Representou o Brasil no México, no Encuentro Iberoamericano de Escritores Bajo el asedio de los signos (2008 e 2018); autografou na FLIPORTO, Feira Literária de Porto de Galinhas (Recife, 2008), e FLIP 2018, na Casa do Desejo e Edições Sesc. Tem participado em curadorias e seleções de obras e projetos. Poesia Lusófona, OFF FLIP, Paraty. Participa de debates, palestras, oficinas, e saraus, apresentando-se na performance A febre e a mariposa ao lado do multiartista Daniel Joppert.  Foi do Núcleo Musical da Cia do Tijolo e membro do Sarau da Paulista. É colunista da Revista Digital Entrementes e atriz. Tem artigos sobre poesia nas Revistas E, do Sesc, Conhecimento Prático-Literatura, etc. Teve resenhas veiculadas no Entrelinhas da TV Cultura. Obras Mitos e ritos (Sortecci, 1987), Visões do medo (Prêmio PAC, Escrituras, 2007), A febre e a mariposa (Patuá, 2018), A noite e o meio, (Córrego, 2019), poemas. Ciranda dos tempos-espaços do desejo (Escrituras, 2005-2006), ensaio. É poeta convidada de um trabalho de improvisação livre orquestral conduzida por Daniel Carrera. Dentre os temas apresentados, está Iracunda - A ópera de silício, com a Orquestra SPIO (Beth Brait Alvim, poesia; Guizado, trompete; Adriana Nunes e Isadora Prata, dança; e Guilherme Pinkalsky, projeções visuais.

Artur Gomes -  Como se processa o seu estado de poesia?

Beth Brait Alvim - Escrevo por dois impulsos: quando não suporto ou quando sinto êxtase.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Beth Brait Alvim - Existem muitos poemas que pautaram minha vida, vinculados a fases específicas: poemas do Desassossego do Pessoa, de Os passos em volta, do Herberto Helder, do Sentimento do mundo do Drummond... mas enfatizo, sem dúvida, todo um  Roberto Piva, sobretudo o seu Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia & do Delírio, além das indescritíveis Wislawa Wiborska, Alejandra Pizarnik e Silvia Plath, escritoras inigualáveis.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Beth Brait Alvim  - Roberto Piva e
Alejandra Pizarnik.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Beth Brait Alvim - Sim, sou impulsionada por paixão e desespero.

Artur Gomes -  Livro que considera definitivo em sua obra?

Beth Brait Alvim  - A febre e a mariposa, Ed. Patuá, 2018.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia¿

Beth Brait Alvim  - Sim: prosa poética, nos dois últimos livros; apresentações dramatizadas e improviso, o que tem me inspirado a experimentar formas diferentes de oralidade poética. Há quase um ano participo como poeta convidada de performances da Orquestra Spio. sob a direção de Daniel Carrera. Apresentamos operetas temáticas em vários espaços convencionais e alternativos, num jogo fascinante entre música, dança, teatro, vídeo arte e poesia. O título da montagem mais recente é Iracunda, a Ópera do Silício.

Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho¿

Beth Brait Alvim  - Do livro Visões do medo, 2007, Escrituras Ed.

Eu quero

meu útero seco banhado pelas águas das andorinhas
                              a lua em frente
um antro de poetas mortos nas asas do meu cérebro

a tramontana de Portbou rangendo nas travas das câmaras de gás
a transfusão do câncer que tritura minha mãe

eu quero verter lixo tóxico
pra ver se meu sangue limpo
respira por mim

Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Beth Brait Alvim  - Todos os que sobrarmos deveríamos passar, espero, a um nível superior de humanidade. Abaixo os ególatras, os fascistas e os consumistas individualistas. Abaixo a sociedade do lucro.

Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Beth Brait Alvim  - Entendo que o  ‘enquadrar-se’ em alguma tribo facilitaria minha inserção e minha divulgação como poeta. Mas prefiro a solidão. O convívio com outros poetas e escritores só se dá quando sigo meus impulsos amorosos e intuitivos e, daí, não enlouqueço e não amargo esse meu ofício. Escolhi e me sinto livre assim, ao invés de me preocupar em frequentar os círculos de auto promoção que pululam no meio literário. Mas sou pluritribal, diria. Sinto-me andarilha, e meu desejo em flanar muito mais é quase visionário. Por este espírito, me sinto próxima dos beats e dos surrealistas. “Minha casa é andarilha/sou mundo/ e o disfarce/ilha”. (Do livro bilíngue português-espanhol  No topo do nada ou Carta para Sabines, Ed. Penalux, a sair pós pandemia,  tradução e arte de Floriano Martins).

Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia¿

Beth Brait Alvim  - É sobreviver. A poesia me faz viva.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder¿

Você é feliz?

Beth Brait Alvim - Não sei. E isso não é tão importante assim... Beijo grande, poeta.


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Ainda Estamos Aqui

poema a(r)mado   todo os dias capino a esperança escavando outras palavras no chão desse quintal   e quando escrevo com enxada              ...