terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Anna Miranda - EntreVistas


Conheci Anna Miranda através de interpretações da Série Outros Autores do ator poeta e dramaturgo Antônio Cunha. Depois que nos conectamos através do face o diálogo tem sido constante e este bate papo a seguir, é o primeiro, de uma série que quero ter com ela, para abordarmos a poesia do Torquato Neto

 Anna Miranda - cantora, poeta, compositora cronista e contadora de histórias. Moro em Teresina onde nasci, formada em Comunicação Social Na PUC- Rio, exerci vários cargos como Diretora do Projeto Torquato Neto da Secretaria de Cultura do Piauí e Coordenadora de Editoração da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, em Teresina, onde moro, depois de quase vinte anos morando no Rio de Janeiro.

 Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

Anna Miranda -É algo visceral. Penso numa palavra, numa imagem e aquele olhar me dá um insight poético. Transformo a imagem, a palavra, o sentimento em poesia. As vezes em música. Sou cantora e compositora.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

 Anna Miranda - Tenho vários. Soneto de Véspera, do Vinicius de Moraes. Siderações, de Cruz e Sousa, A Moenda, de Da Costa e Silva, ambos musicados por mim no meu Álbum TROPICÁLIDO. Gosto da poesia de Lindolf Bell, Adélia Prado e outros. Tem muita gente nessa lista.

 Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Anna Miranda - Noel Rosa. Sou cantora e pesquiso a obra de Noel. Para interpretá-la num show sensacional, PALPITE FELIZ. Há uma melancolia poética em Noel que me fascina. Noel tem uma música, Cor de Cinza, que é o mais belo e hermético poema impressionista que conheço. Foi lançada em 1955 por Araci de Almeida em discos Continental. É um poema/ canção pouco conhecido. Jards Macalé gravou lindamente.

 - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsionar para escrever?

 Anna Miranda - Imagens mentais. Imagens virtuais. Uma palavra, um sentimento.

 Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua vida?

Anna Miranda - Demian, de Herman Hesse. O Homem Rouco, do Rubem Braga e O Encontro Marcado de Fernando Sabino. Talvez DEMIAN tenha sido mais definitivo. Quando era jovem lia mais prosa poética. A poesia chegou muito depois. Com as letras das minhas canções, provavelmente.

 Artur Gomes - Além da poesia em verso , já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

 Anna Miranda - Sim. O tempo todo. Sou cronista, letrista, compositora. O título de poeta me foi outorgado posteriormente. Quando descobri que era poeta, de fato e de direito, entrei num estado de transe . Foi demais.

 - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Anna Miranda - Escrevi um livro , PROVA DE FOGO, Em 1981, prefaciado pela Leila Miccolis. Lá estão meus poemas quando encontrei a pedra. Um deles diz assim:

Amar é transformar-se em polvo, criar mil braços, transformar-se em pássaro, voar numa febre selvagem, explodir como um vulcão entrando em erupção, é fungar como um asmático

é sede

é frio

é saúde

É riscar no espaço do ser amado como um raio

É correr nele como um Rio

brilhar

. brilhar

brilhar

 Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

 - Não tenho a menor idéia. Você tem?

 Artur Gomes – No prefácio do livro Pátria A(r)mada  o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele trás as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

 - Da tribo da inquietude visceral/ antropofágica da chamada geração mimeógrafo dos anos 70/80. E nesse exato momento me lembrei de Torquato Neto: eu brasileiro confesso minha culpa meu pecado/ meu sonho desesperado meu bem guardado segredo/ minha aflição/ aqui é o fim do mundo/ aqui é o fim do mundo/aqui é o fim do mundo/ ou lá?

 Ou: O poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia....

 Podem existir versos mais belos e mais impressionantes do que esses? A metralhadora giratória de Torquato, meu conterrâneo, gravei canções dele.

 Artur Gomes - Nos  dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia? 

Anna Miranda - O poeta é um inconformado, um mutante, um transformador ou transmutante. Para mim essa é a militância de um poeta: não aceitar, chacoalhar, escarafunchar, fuçar, reinventar, usar a palavra em toda a sua potência transformadora.

 Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

Anna Miranda - Muitas. Mas elas ficam para uma nova entrevista.



 

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domingo, 27 de dezembro de 2020

Antônio Cunha - EntreVistas


O meu primeiro contato com esse multiartista, poeta, ator, dramaturgo  Antônio Cunha, se deu através de um outro grande artista e amigo Valdir Rocha. O motivo era a minha autorização para ele interpretar o meu poema IndGesta. Depois de me deliciar com sua maravilhosa leitura, passei a acompanhar cotidianamente toda a sua produção de vídeopoéticos, com leituras de poetas vários. Cada interpretação do Antônio Cunha me desperta um vendaval, é emoção a flor da pele. E daí me veio a ideia da criação da  Mostra Cine Vídeo De Poesia Falada que você pode assistir na página Studio Fulinaíma Produção Audiovisual

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Antônio Cunha - Diretor, dramaturgo, roteirista e ator, natural de Florianópolis, é de sua autoria, dentre outras, a peça “Dona Maria, a Louca”, que já recebeu montagens no Brasil e em Portugal, naquele país pela atriz portuguesa Maria do Céu Guerra.

Em 2004, lançou o livro “Três Dramas Possíveis”, contendo três de seus principais textos teatrais. Como ator, tem participado de diversos trabalhos no teatro e no cinema, dentre os quais destaca-se o filme ENSAIO, de Tânia Lamarca, lançado em 2013. Assinou a direção de várias peças de teatro, suas e de outros autores, como “Uma Visita”, do dramaturgo alemão Martin Walser, pelo Grupo Armação, de Florianópolis, com a qual excursionou pelo território dos Açores, em Portugal, a convite do governo local.

Iniciou a sua incursão pela ópera realizando a concepção e direção cênica de “O Diretor de Teatro” (Der Schauspieldirektor) de Mozart (2004) pela Companhia da Ilha (Florianópolis), continuando com Cavalleria Rusticana, de Mascagni (2004); A Flauta Mágica, de Mozart (2005); Rigoletto, de Verdi (2006); La Traviata, de Verdi (2007 e 2008); O Elixir do Amor, de Donizetti (2008) e O Barbeiro de Sevilha de Rossini (2009), todas pela Pró-Música de Florianópolis.

Em 2010, dirigiu com a mesma equipe a remontagem da ópera La Traviata em Florianópolis, já pela Cia. Ópera de Santa Catarina, e, em 2012, a remontagem de O Barbeiro de Sevilha apresentada na cidade de Chapecó. Em 2013, dirige a montagem da ópera Carmen, de Bizet.

 É membro da Academia Catarinense de Letras e Artes - ACLA.

 


Artur Gomes -  Como se processa o seu estado de poesia?

Antônio Cunha  – Está sempre ali. É algo latente, que requer um estímulo, seja externo, seja interno, para se manifestar. Não encaro esse estado como algo sublime ou onírico, mas como uma predisposição mental e emocional somada a uma vivência.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Antônio Cunha   – “O Amor”, de Maiakovsky. Para mim, é o poema de todos os poetas.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Antônio Cunha  – Tenho sempre vários na minha cabeceira. Ultimamente Camões (com os seus Lusíadas) ocupa um lugar de destaque (comprei uma linda edição e voltei a lê-lo), mas estão juntos poetas que conheci graças à minha série Outros Autores e dos quais recebi alguns livros maravilhosos.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Antônio Cunha  – Não sou um poeta profícuo. Nem mesmo publiquei enquanto poeta. Dedico mais tempo escrevendo dramaturgia do que poesia, embora a minha dramaturgia seja impregnada de poesia. Escrevo um poema vez ou outra e somente quando sinto as condições que considero propícias. E também não o exponho de imediato. Tem um tempo de maturação. Se passar bem pelo período de maturação, eu o exponho. Se não, fica lá.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Antônio Cunha – Só tenho um livro publicado em 2004, com textos dramatúrgicos, chamado Três D®amas Possíveis. Mas tem uma obra que considero definitiva para o meu gosto pela literatura que é “O Navio Negreiro” de Castro Alves. Foi o meu primeiro porre de poesia, de literatura. Li aos 14 ou 15 anos, encontrei-o na biblioteca da escola, comecei a ler e não conseguia parar. Como era exemplar único e considerado raro, não era possível levar para casa. Então, eu passei vários dias usando o tempinho do intervalo de recreio para ir à biblioteca e ler um pouquinho de cada vez.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Antônio Cunha – Acho que de alguma forma já respondi antes. A minha dramaturgia é, em alguns casos, fortemente marcada pela poesia. E também tenho escrito um ou outro conto, pequenos contos, que, no fim, passeiam muito pela prosa poética.

Artur Gomes -  Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Antônio Cunha – Acho que todos. Mas tem um que eu escrevi quando o Golpe de 2016 no Brasil se confirmou, iniciando esse processo de miserê político, ético, econômico, enfim, a nossa derrocada enquanto Nação:


                                                           O POVO

 O povo, o povo mesmo, o grande excluído, o que move a roda,

quase sempre perde.

E, quando ganha, ou pensa que ganha, é por pouco tempo,

caso contrário, mesmo ganhando não terá paz.

Terá que lutar sempre. Não lhe será dado o direito de descansar.

Quando, desatento, resolver desmontar a última barricada;

quando, desarmado, pensar em cobrir a última trincheira,

eis que o opressor despontará com as suas bestas e os seus fantasmas, marchando vorazmente em alguma esquina,

empunhando as suas trapaças, o seu ódio e o seu champanhe,

para então tomar de volta o que cedera.

O povo, o povo mesmo, não terá paz.

Mas só ele, como mais nada ou ninguém, sabe o que é perder.

E só ele, como mais nada ou ninguém, saberá recomeçar.

 Artur Gomes -  Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Antônio Cunha -  Espero que possamos ir para as ruas o mais breve possível, enquanto há tempo, para, a exemplo de alguns povos irmãos daqui da América do Sul, tornar a dar um bom rumo ao país. Não acredito que passem, mas terão que se acomodar. Precisamos devolver para o breu o fascismo, a brutalidade, a ignorância perversa, a cafonice desmedida, enfim, tudo o que hoje infelizmente está no pódio. E nós todos, que repudiamos tudo isso, passarinhos!

 Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele trás as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Antônio Cunha - O grande Ademir tem razão. No fundo todo artista, todo escritor, todo poeta busca a atenção e o amor da sua tribo, porque na verdade a sua tribo é a matéria-prima de sua produção. Mesmo quando saímos dela, ela não sai de nós. Eu nasci e vivo numa capital de Estado que demorou bastante para crescer enquanto cidade, mas que, quando cresceu, cresceu rápido. Florianópolis é pequena e grande ao mesmo tempo. E eu sou de uma geração que começou a experimentar o fazer artístico e literário inspirada no que recebia ou ia buscar lá fora. Depois, de alguma forma, aprendemos a misturar temperos e ingredientes locais e mesmo criar outros. Durante um bom tempo nos denominaram e nos autodenominávamos “amadores”. Isso porque a nossa geração de artistas, pelo menos aqui, não encontrava condições de viver de sua arte. Era necessário ter um emprego, um trabalho rentável, para então exercer a arte, a literatura. Isso foi superado em parte pela geração seguinte.

 Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Antônio Cunha – O poeta continua e continuará sendo o que sempre foi, ou seja, aquele que, segundo Quintana, não é um Relações Públicas, mas um Relações Íntimas (poeta e público). O poeta inspira, processa e respira. Ou seja, o que entrou se embebeu do seu interior para depois sair. No fundo todos, de alguma maneira, fazemos poesia. Quem escreve e quem lê. A diferença está no lugar que e poesia ocupa em nossas vidas. Poeta é quem faz disso um princípio, um meio e uma finalidade.

Artur Gomes - O que te emociona mais escrever ou falar poesia ?

Antônio Cunha - Tenho as mesmas sensações em ambas as situações. Todo poema surge com uma partitura própria, então o dizemos antes ou pelo menos no ato de escrevê-lo. Ele nasce sendo dito. E continuará sendo dito em todos os ritmos e tons que essa partitura permitir e até poderá ganhar outra. Ao interpretar um poema próprio ou de outro poeta, exercito essas possibilidades. No meu caso, como também sou um ator, é o que preciso fazer quando trabalho um poema ou qualquer outro texto.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

 Antônio Cunha -  Quando este pesadelo brasileiro irá acabar?

Algo que eu gostaria de responder, mas infelizmente não posso.

 

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domingo, 11 de outubro de 2020

Demetrios Galvão - EntreVistas

 


 Através de uma postagem do meu querido, poeta e amigo, Rubervam Du Nascimento, divulgando a publicação de seus poemas na Revista Acrobata, li pela primeira vez o nome Demetrios Galvão. Depois de navegar pela Acrobata e ler  a diversidade do universo poético artístico/cultural ali contido, não perdi tempo, adicionei o Demetrios no face. A partir de então começamos a dialogar e trocar ideias sobre o nossa produção poética e o nosso empenho pela difusão da poesia. Essa EntreVista a seguir é um fragmento em 3x4, da nossa comunhão diária, de como sentir pensar viver  escrever poesia.  

 A pergunta que não fiz e ale: - você conseguiria viver sem poesia?

 Eu não conseguiria.



Demetrios Galvão
, nasceu e vive na cidade de Teresina/PI. É poeta, professor e historiador. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017), Reabitar (2019) e do objeto poético Capsular (2015).

 

Em 2005 lançou o CD de poemas Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico. Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012).

 

 Entre os anos de 2017 e 2018 editou o blog Janelas em Rotação (dentro do portal da Cidade Verde). Tem poemas publicados em diversas antologias e em revistas literárias. Atualmente é coeditor da revista Acrobata, em atividade desde 2013 - https://revistaacrobata.com.br/




Artur Gomes - Como se processa o seu estado de poesia?

 Demetrios Galvão - É um estado latente, uma espécie de corrente energética que vibra/oscila constantemente, por períodos o fluxo é maior, em outros momentos vivo a calmaria de ideias. Mas basta um risco no céu, um assovio, um espinho no dedo para o desassossego poético começar. Houve um tempo que meus dispositivos criativos estavam associados à circulação na rua, ao caos urbano e aos exercícios de estranhamento. Mas, ainda antes da pandemia e do isolamento social, minha percepção já estava voltada para as coisas simples e calmas da vida, um mergulho introspectivo nos processos cotidianos e seus pequenos infinitos. Percebo que houve uma mudança na frequência dos sinais que passei a captar, meu último livro “Reabitar” é resultado disso. Mas, tenho um poema que responde bem sua pergunta:

 

                                                      caos calmo

 

além de memórias

o poeta coleciona sucatas e ruínas

para o trabalho nas madrugadas

 

o esforço manual e paciente de

descascar palavras

no precipício de criaturas cintilantes

 

lá onde os bichos são cegos

e a linguagem é um ruído

uma faísca no escuro das águas.


Artur Gomes - 
Seu poema preferido? Próprio. Ou de outro poeta de sua admiração.

 Demetrios Galvão - Eu tenho uma dificuldade enorme em de ter que escolher “um preferido”, meu ou de outra pessoa. Mas, vou apontar dois que acho fantásticos e que reverberam em meu corpo, desde o dia e que os li, são eles: o “Ulvo” do Allen Ginsberg e o longo poema “Altazor” do poeta surrealista chileno Vicente Huidobro. Esses poemas correm em meu corpo/mente como correntes elétricas, por vezes, fazem faíscas e desorganizam meus órgãos/ideais. Essa desorganização provoca gozo e um sentimento de estar-vivo que me acende.

 


Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira? 

 Demetrios Galvão - A minha cabeceira é uma encruzilhada, um ponto de curto-circuito, lugar de trânsito intenso, de gente viva e morta. Muitas línguas são faladas ao pé do ouvido e pego as frases pela metade, os sons chegam enviesados, retalhos de fotografias, fragmentos cinematográficos... “meu poeta” de cabeceira é um Frankenstein, um ser sem forma objetiva, uma entidade poética que agrega várias sensibilidades/estéticas.   

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

 Demetrios Galvão - Não tenho nada em específico, não sou “um poeta” que senta e diz “agora vou escrever um poema”... não me coloco nessa condição. Minha relação com a palavra/poesia é um relacionamento livre, nos encontramos quando estamos a fim. Às vezes fico dias namorando com algumas palavras até formular um desenho que me toca, depois vou juntando as coisas com muito carinho e as imagens/versos vão se revelando, sigo nesse namoro sem muita pressa, ruminando a engenharia do texto, até que tudo dá certo no final. Mas, gosto de escrever ouvindo música, depois que a casa dorme e posso ouvir os silêncios dos cômodos, ver seus detalhes imperceptíveis à luz do dia... esse é um estado de poesia que me ajuda a escrever.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

 Demetrios  Galvão - Pra ser sincero, não penso que tenho “uma obra”, há algum tempo estou empenhado em um percurso de vida-linguagem que aos poucos está ganhando um contorno que me agrada. Penso que a relação entre os livros publicados, a reverberação desses artefatos poéticos e a minha vida, tudo junto, está construindo um caminho aberto ao porvir, mas nada definido ou definitivo. Nesse momento estou curtindo o último livro, Reabitar (Moinhos, 2019), e vendo ele ganhando vida e desenvolvendo sua própria história. 

 Artur Gomes - Além da poesia em verso já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

 Demetrios Galvão - Além das provocações que resultam em poemas e dos livros publicados, já fiz um CD de poesia experimental em 2005 intitulado de “um pandemônio léxico no arquipélago parabólico”. Foi uma parada ruidosa, estranha, uma tentativa de colocar a poesia em outro lugar. Na época eu queria fraturar esse elemento lírico da poesia. Além dessa experiência, também gosto bastante de organizar/participar de sarau e de falar poemas em público, embora não seja tão performático.

 Outra atividade que que me dá bastante prazer e tem me proporcionado grandes aprendizados, está relacionado ao trabalho com a revista Acrobata que edito, juntamente com o amigo Aristides Oliveira, desde 2013.  A revista que surgiu primeiramente na versão impressa e lançamos 9 edições, hoje estamos atuando no formato eletrônico, como publicações diárias. O exercício diário com a revista me faz experimentar a poesia em outras direções, principalmente na construção da teia humana e na propagação dos textos, fazendo-os chegar a um número imenso de leitores.

 Artur Gomes - Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Demetrios Galvão - No meu caso, eu troco a pedra pelo espinho e respondo com um poema:

 

volumes agudos # 2

 

trago

nas mãos

uma coleção

de acidentes

 

– o silêncio

aduba as formas –

 

brota

em mim

um novelo

de espinhos

 

– plantio

nem sempre

afável –

 

Como gosto de cactos, minha metáfora é o espinho. Muitas vezes, é nesse jogo espinhoso, doloroso que minha poesia se desenvolve. A linguagem é uma matéria que costuma cortar/perfurar e por isso, é preciso desenvolver uma habilidade para lidar com essa força. O trabalho com a poesia é também angustiante, tanto pelas situações que vivemos, como pela manipulação da linguagem. Como diria o poeta Paulo Machado "Fazer poesia é fácil / como amordaçar um lobo".

 Artur Gomes - Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

 Demetrios Galvão - Não sei quem ou o que passará, tenho muita desconfiança sobre uma série de coisas que estão batendo/chutando à nossa porta, passando em nossas telas ao toque dos dedos. As incertezas são monumentos estranhos ocupando os espaços da casa e da cidade.  Tento manter a mente saudável não perder a esperança e nisso, a poesia tem sido fundamental. Mas, sinceramente, espero que as pessoas de bom coração possam passarinhar, bem vivas e lindas, para fazer a diferença no mundo. No mais, tudo é especulação.

 Artur Gomes – Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele traz as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

 Demetrios Galvão - Sou da comuna dos poetas que encaram o mundo com os olhos livres, que não separam vida e linguagem.  Minha formação vem da potência do rock, do surrealismo/beatnik e do anarquismo... aprendi que o barato das coisas se realiza no avesso do que está dado como normativo (careta/estático) e na parceria de bons amigos, não ando mau acompanhado. Sou de fato, um poeta que gosta do bando.

 Já participei de coletivo de poetas, já estive inserido em movimentos sociais, já cantei em uma banda de punk/hardcore, todas as minhas experiências foram de pensar o coletivo... sou um poeta que, definitivamente, não anda só.

 Artur Gomes – Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

 Demetrios Galvão - Enquanto vivermos em uma sociedade desigual, injusta, preconceituosa, conservadora, etc etc... “sempre serão tempos difíceis para os sonhadores”. A militância com a poesia é a coragem de seguir acreditando na “palavra mágica”, essa força vital que nos faz levantar a encarar o mundo com um olhar/atitude diferente, com esperança e indignação, com amor e angústia, prazer e revolta, vivendo todas as contradições do estar vivo e levando isso para o papel ou vocalizando, na forma de versos. O poeta de hoje luta tanto quanto o de ontem, o que me faz concluir que “ser poeta” é estar constantemente no fronte de alguma luta. Primeiramente, na defesa da própria poesia, da cultura, do fomento e acesso à leitura. O poeta está engajado nas questões do sensível e seus desdobramentos.

 No mais, o Brasil passa dos 150 mil mortos pela covid–19, o Pantanal e a Amazônia sofrem com queimadas criminosas e temos um despresidente fascista, desmontando o país. Essa é a realidade que nos assombra no agora, um cenário incômodo e que provoca muitos de nós a escrever, com diferentes abordagens poéticas sobre o que está acontecendo. Os poetas estão aí, para amplificar nos seus versos, as indignações dessa época. Não tenho dúvidas que teremos uma produção ampla e potente sobre a memória desse tempo.  E isso, ficará como registro, vestígio, arquivo, como algo que não será silenciado.

 Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

 Demetrios Galvão - Você conseguiria viver sem a poesia?

 

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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Rodrigo Souza Leão - Todos os Cachorros São Azuis

 



Todos os Cachorros São Azuis

Passados 15 anos dos lançamentos póstumos de Me roubaram uns dias contados, O Esquizoide, Carbono Pautado e da publicação no exterior de Todos os cachorros são azuis, editado em Londres (tradução de Stefan Tobler e Zoë Perry) e no México (2013, com tradução de Juan Pablo Villalobos), o Selo Demônio Negro relança a obra completa de Rodrigo de Souza Leão, iniciando com esta edição especial de Todos os Cachorros São Azuis, um livro sobre um homem que tem alucinações, acredita piamente nelas e as transforma em narrativas. 

O autor narra o princípio de seus surtos psicóticos. Segundo ele, quando adolescente engoliu um grilo, que se tornou um chip em seu cérebro, um chip que ao mesmo tempo registra e difunde seus pensamentos. O narrador é um espião de si mesmo, sempre cometendo o crime de transparecer aquilo que lhe é mais íntimo; neste processo, os pais, os parentes e os médicos, ao tentar lhe administrar remédios, se tornam monstros, que querem arrancar do protagonista suas confissões mais escondidas. 

Apaixonado pela poesia de Rimbaud, Rodrigo de Souza Leão viveu o sofrimento de lidar com sua esquizofrenia, o que o levou à morte precoce (morreu no Rio de Janeiro, em 02 de julho de 2009, com apenas 44 anos). Sobre o horror ao tratamento concedido aos loucos em hospício, disse numa entrevista:

“São lugares tão bonitos que lembram cemitérios.”

“Tomara que exista eternidade. Nos meus livros. Na minha música. Nas minhas telas. Tomara que exista outra vida. Esta foi pequena pra mim”, escreveu Rodrigo em sua carta de despedida.

 Na entrevista que fiz com o escritor boliviano Maximiliano Barrientos, para falar de seu belo “Hotéis” (Rocco), perguntei a ele sobre suas leituras de autores brasileiros. Na resposta, entre Bernardo Carvalho, Michel Laub e Hilda Hilst, ele citou com entusiasmo “Todo os Cachorros São Azuis” (7 Letras), de Rodrigo de Souza Leão.

“Achei um livro brutal, e, apesar de contar uma experiência tão dura com a loucura, a estadia em um hospital psiquiátrico, é cheio de humor”, disse Barrientos.

Então, fui atrás do livro e do escritor, desconhecidos para mim. O livro não é exatamente fácil de achar, mas algumas livrarias devem ter esquecido o título em seus estoques. Basta bater um pouco de perna e você encontra um exemplar novo.

Rodrigo de Souza Leão morreu em 2009, pouco depois de lançar o livro. Era jornalista e fundou a revista eletrônica “Zunái”. Publicou vários livros de poesia, a maioria na plataforma digital. Pela Record, saíram os livros “Me Roubaram uns Dias Contados”, “O Esquizoide” e “Carbono Pautado”. Em seu site, estão publicados suas poesias e contos. 

Nascido em 1965, escreveu para jornais, foi músico e artista plástico. Foi diagnosticado com esquizofrenia paronoide, agravada por transtorno obsessivo-compulsivo. Levou parte de sua experiência para sua obra, principalmente para este “Todos os Cachorros São Azuis”. Ele morreu numa clínica psiquiátrica, em circunstâncias que nunca foram esclarecidas.

Pode-se dizer que o livro de Rodrigo tem certo parentesco com “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam” (Record), de Evandro Affonso Ferreira. Tratam ambos da loucura, mas o livro de Rodrigo escapa da sofisticação narrativa para explorar sua condição, em confronto com a ficção.

O resultado é arrebatador. Começa com o personagem dizendo que engoliu um chip, que está sendo vigiado – mais à frente, ele irá contar que engoliu um gafanhoto, como aconteceu na realidade com o autor.

Recheado de citações, com trocadilhos bem humorados, o livro em muitas partes parece uma coleção de aforismos. Esse ritmo ágil simula o narrador esquizofrênico e seus amigos Rimbaud e Baudelaire, espécie de entidades que o acompanham como seres imagéticos.

Trancado anos num hospício, quando sai, cria uma comunidade, a Todog, com língua própria, como a nadsat de “Laranja Mecânica” (Anthony Burgess, Aleph). O final choca pela criatividade e sua força narrativa.

Raro encontro do bom humor com erudição e prosa fluente, este “Todos os Cachorros São Azuis” apenas provoca lamento pelo talento interrompido. Uma vida que ele mesmo lamentava estar perdida, não só a profissional, mas também a social e afetiva.

Sem restrições, Rodrigo expõe seu interior como uma confissão, por certa dolorosa.

*****

“Aquele dia eu chorei por estar sozinho. Chorei por não ter um emprego. Chorei por não ter uma mulher. Chorei por não ter filhos. Chorei por não ter uma família. Chorei por ter 37 anos de idade e viver ainda como um adolescente”.

“Um grito lancinante vindo do âmago de um dos internos. Por que não internam as mulheres junto com os homens? Será que ia virar uma confusão sexual geral? Acho que louco não tem tempo de pensar em sexo. Alguns são vistos parados e se bolinando. Mas isso ocorre mais nas ruas. Estou sem o meu cachorro azul aqui, estou despido do que sou. Na prática não sou ninguém. Não adianta eu gritar socorro. Aqui todos estão sendo levados a algum lugar pior. E o inferno não é o pior dos lugares.”

“Deus não: deuses.

Tenho rituais. Acendo um cigarro atrás do outro e deixo que se fumem. Deixo que os deuses fumem cada um o seu cigarro. Às vezes acendo todos ao mesmo tempo.

Meus deuses fumam comigo. Fica uma bagunça, orgia de fumaça. E Rimbaud dança. Baudelaire foge. Sorrio.

Imagina se fossem baseados? Os deuses todos doidões iriam sair feito capetas para a vida. Entrariam deuses e sairiam demônios.”

 

 

Ricardo Ballarine

em capítulo dois

https://capitulodois.com/2015/01/26/a-confissao-dolorosa-de-rodrigo-de-souza-leao/

 

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Balbúrdia PoÉtica - 23 de setembro

Balbúrdia PoÉtica – Por Ética Dia 23 – setembro – das 18 às 22h Coffe Break – Av. Henrique Valladares, 17ª lista dos poetas convidados para ...