Aos
Atores
Jacques Copeau
O ator expõe-se a perder sua face e a perder sua
alma. Ele as encontra falseadas, ou não as encontra mais, no momento em que
necessita delas para retornar a si mesmo. Seus traços não são recuperados, seu
jeito e seu verbo permanecem excessivamente desligados, destacados, como que
separados da alma. A própria alma, com muita freqüência alterada pela representação,
excessivamente arrebatada, excessivamente ferida pelas paixões imaginárias,
contraída pelos hábitos artificiais, pisa em falso sobre o real. Toda a pessoa
do ator guarda, neste mundo humano, os estigmas de um estranho comércio. Ele
tem o ar, quando retorna ao nosso meio, de quem saiu de um outro mundo.
A profissão do ator tende a desnaturá-lo. Ela é
conseqüência de um instinto que leva o homem a desertar para viver sob as
aparências. É portanto uma profissão que os homens desprezam. Consideram-na perigosa.
Tacham-na de imoralidade, e condenam-na por seu mistério. Essa atitude
farisaica, que não foi eliminada pelas mais extremas tolerâncias sociais,
reflete uma idéia profunda. É que o ator faz uma coisa proibida: ele representa
sua humanidade e brinca com ela. Seus sentidos e sua razão, seu corpo e sua
alma imortal não lhe foram dados para que os utilize assim, como um
instrumento, forçando-os e desviando-os em todos os sentidos.
Se o ator é um artista, ele é de todos os artistas
o que em maior grau sacrifica sua pessoa ao ministério que exerce. Ele não pode
dar nada se não se dá a si mesmo, não em efígie, mas de corpo e alma, e sem
intermediário. Tanto sujeito quanto objeto, causa e fim, matéria e instrumento,
sua criação é ele mesmo.
É aí que habita o mistério: que um ser humano
possa pensar e tratar a si mesmo como matéria de sua arte, agir sobre si mesmo
como sobre um instrumento ao qual ele deve identificar-se sem deixar de
distinguir-se, agir e ser o que age ao mesmo tempo, homem natural e marionete...
... Há alguma coisa no ator que depende daquilo
que ele é, que atesta sua autenticidade, que se nos impõe por sua maneira, sem
fraude possível, e desde que ele surge em cena, antes que tenha aberto a boca,
por sua simples presença. É essa alguma coisa que, em nosso tempo, distinguia
entre todas uma atriz como a Duse. É uma qualidade da natureza, que a arte pode
servir para iluminar, mas que não poderia imitar...
Que o ator nem sempre sinta o que representa, que
ele represente o texto sem representar a personagem nem a situação, que ele
consiga representar sem erro aparente, ou seja, mais ou menos justa e
corretamente, mesmo que não seja tocado - isto é verdade. É seu fracasso. É a
tendência que seguem os preguiçosos e os medíocres. É o martírio a que os
melhores expõem-se todos os dias, pois nenhum deles jamais sabe se não
sentir-se-á subitamente devastado pela secura em um desses horríveis momentos
em que ele se ouve falando, em que se vê representar, em que julga a si mesmo
e, quanto mais se julga, mais se evade.
Diderot dirá que "ele está comovido sem nada
sentir".
Se ele está visivelmente "comovido" é
com efeito porque ele não sentia nada. Ele estava por sentir.
A idéia de uma sensibilidade que possui a si
mesma, de uma espontaneidade que se busca, de uma sinceridade que se trabalha
provoca facilmente o sorriso. Que não se sorria depressa demais. Que se reflita
antes sobre a natureza de um ofício em que há tanta matéria a trabalhar. A luta
do escultor com a argila que modela não é nada, se a comparamos com as
resistências que opõem ao ator seu corpo, seu sangue, seus membros, sua boca e
todos os seus órgãos.
Imagino um ator diante do texto de um papel que
ele ama e compreende, cujo caráter convém à sua natureza, cujo estilo adapta-se
aos seus meios. Ele sorri de satisfação. Esse papel, ele o decifra sem esforço.
A primeira leitura que faz surpreende por sua justeza. Tudo é magistralmente
indicado, não somente na intenção geral, mas até nas pequenas nuances. E o
autor alegra-se por ter encontrado o intérprete ideal que vai levar sua obra às
nuvens: "Espere, diz-lhe o ator, ainda não o sou." é que ele não se
engana com essa primeira tomada de posse em que apenas o espírito fez sua parte.
Eis que ele se põe a trabalhar. Repete o texto à
meia-voz, com precaução, como se temesse espantar alguma coisa dentro de si
mesmo. Essas repetições confidenciais ainda guardam a qualidade da leitura. As
nuances da emoção ainda são perceptíveis para alguns auditores privilegiados. O
ator, agora, possui seu papel, de memória. É o momento em que começa a possuir
um pouco menos sua personagem. Ele vê o que deve ser feito. Compõe e
desenvolve. Realiza os encadeamentos, as transições. Racionaliza seus movimentos,
classifica seus gestos, conserta suas entonações. Olha-se e ouve-se.
Destaca-se. Julga-se. Parece não dar nada de si mesmo. Por vezes interrompe-se
em seu trabalho para dizer: não sinto isto. Propõe, freqüentemente com razão,
uma modificação no texto, uma inversão na frase, um retoque na encenação que
lhe permitiria, acredita, sentir melhor. Procura meios de colocar-se em
situação, em estado de sentir: um ponto de partida, que por vezes estará na
mímica, ou no diapasão da voz, em uma descontração particular, em uma simples
respiração... Esforça-se por encontrar uma harmonia. Arma suas redes. Organiza
a captura de alguma coisa que compreendeu e pressentiu há muito tempo, mas que
lhe permanece exterior, que ainda não entrou nele, não alojou-se nele... Escuta
com um ouvido distraído as indicações essenciais que lhe são dadas, do
proscênio, sobre as emoções da personagem, seus móveis, todo seu mecanismo
psicológico. E entretanto sua atenção parece absorvida por detalhes irrisórios.
É então que o autor, com uma polidez excessiva,
pega pelo braço seu ilustre intérprete e diz-lhe ao ouvido: "Mas, caro
amigo, por que não mantém o que fez no primeiro dia? Estava perfeito. Seja você
mesmo."
O ator não é mais ele mesmo. E ainda não é "o
outro". O que fez no primeiro dia escapa-lhe à medida em que se põe na
situação de representar seu papel. Precisou renunciar ao frescor, ao natural,
às nuances, e a todo o prazer que lhe causava sua animação, para realizar o
trabalho difícil, ingrato, minucioso que consiste em fazer sair de uma
realidade literária e psicológica uma realidade de teatro. Precisou ordenar,
dominar, assimilar todos os procedimentos de metamorfose que são ao mesmo tempo
aquilo que o separa de seu papel e aquilo que a ele o conduz. É somente quando
tiver realizado esse estudo de si mesmo em relação à personagem dada,
articulado todos os seus meios, exercido todo seu ser em servir às idéias que
formou e aos sentimentos para os quais prepara o caminho em seu corpo, em seus
nervos, em seu espírito, até a profundeza de seu corpo, é então que
reaver-se-á, transformado, e que tentará doar-se.
Enfim o ator preenche seu papel. Não encontra nada
de fútil nem de artificial. Poderia vivê-lo sem palavras. Confronta sua
sinceridade com esse belo "silêncio interior" de que falava Eleonora
Duse.
Eis o homem exposto no teatro, oferecido em
espetáculo, posto em julgamento. Ele entra em um outro mundo. Assume essa
responsabilidade. Sacrifica-lhe todo um mundo real: inquietação, mal-estar,
pesar, sofrimento - ou antes, é libertado dele. Mas a atitude de seus comparsas
em cena, uma reação da sala, uma desordem nos bastidores, o brilho de um
refletor, a dobra de um tapete, um erro da administração, um esquecimento de
acessórios, um acidente no figurino, uma falha da memória, um lapso da boca,
uma queda passageira de sua força vital - tudo o ameaça, tudo está contra ele
que, sozinho, tem que tudo dominar; tudo pode a cada instante interpor-se entre
sua sinceridade, que nada poderia forçar quando se esquiva, e o jogo que ele
tem que jogar seja lá como for. Tudo pode despojá-lo do que ele pensava ter
dominado através de um longo trabalho, separá-lo da personagem que havia
composto de sua substância mas que pode sofrer, como esta, alterações profundas
e repentinas.
A cortina sobe e o surpreende... seu primeiro
ataque se dá um pouco involuntariamente... ei-lo desunido. Eu o vejo torcer a
ponta de sua gravata. Deixa um instante de sentir. Bate em retirada. Procura um
ponto de apoio. Respira profundamente. Creio que vai se recuperar, porque
conhece seu ofício. Você me diz que a perturbação em que o colocaram esses
fúteis incidentes prova que ele não sentia nada. Eu acredito que quanto mais um
ator é sensível, mais está sujeito a essas vertigens. Mas ele vai voltar a
sentir... porque conhece seu ofício.
Suponhamos que não tenha deixado de sentir. Ele
atinge sua plenitude. Mas essa própria plenitude, ele precisa medi-la. Ele
possui uma medida da sinceridade, como possui uma da técnica. Dir-se-á que o
ator não sente nada porque sabe servir-se de sua emoção? Que as lágrimas que
correm e esses soluços são vãos porque só estrangulam por um instante a voz do
intérprete e não alteram quase nada sua dicção? Não seria antes de admirar,
renunciando absolutamente a compreendê-lo, esse admirável instinto, esse dom de
natureza e de razão que, há pouco, colocava o ator desconcertado na rota de sua
sensibilidade e que agora impede sua emoção de descompor o jogo dramático? Um
tal jogo exige uma cabeça "de ferro", como disse Diderot, mas não
"de gelo", como ele escreveu antes. Também são necessários nervos
flexíveis e resistentes, e operações interiores muito rápidas e muito delicadas.
Contestar ao ator a sensibilidade, por causa de
sua presença de espírito, é recusá-la a todo artista que observa as leis de sua
arte e não permite jamais que o tumulto das emoções paralise sua alma. O
artista reina, com um coração tranqüilo, sobre a desordem de seu ateliê e de
seus materiais. Quanto mais a emoção aflui nele e o agita, mais seu cérebro
torna-se lúcido. Essa frieza e esse estremecimento são compatíveis, como na
febre e na embriaguez.
... "abarcar toda a extensão de um grande
papel, dispor nele os claros e escuros, os suaves e os fracos, mostrar-se igual
nas passagens tranqüilas e nas passagens agitadas, ser vário nos detalhes,
harmonioso e uno no conjunto, e formar em si mesmo um sistema elevado de
declamação... É obra de uma cabeça fria, de um profundo julgamento, de um gosto
delicado, de um estudo penoso, de uma longa experiência e de uma tenacidade de
memória pouco comum." Diderot tem razão: "tudo foi medido, combinado,
apreendido, ordenado" na cabeça do ator. Mas se a sua representação não
for mais que a expressão de sua maestria e como que a exposição de um excelente
método, ou bem ele descansa na rotina ou bem dissipa-se nos jogos da
virtuosidade. O absurdo do "paradoxo" é opor os procedimentos do
ofício à liberdade do sentimento e negar, no artista, sua coexistência e
simultaniedade.
Para o ator, doar-se é tudo. E para doar-se, é
preciso antes possuir-se. Nosso ofício, com a disciplina que supõe, com os
reflexos que fixou e comanda, é a própria trama de nossa arte, com a liberdade
que exige e as iluminações que encontra. A expressão emotiva surge da expressão
justa. A técnica não só não exclui a sensibilidade, mas a autoriza e liberta. É
seu suporte e sua salvaguarda. É graças ao ofício que podemos abandonar-nos,
pois é graças a ele que saberemos reencontrar-nos. O estudo e observância dos
princípios, um mecanismo infalível, uma memória segura, uma dicção obediente, a
respiração regular e os nervos relaxados, a liberdade da cabeça e do estômago
proporcionam-nos uma segurança que nos inspira a audácia. A constância nas
entonações, nas posições e nos movimentos preserva o frescor, a clareza, a
diversidade, a invenção, a igualdade, a renovação. Permite-nos improvisar.
Não é monstruoso que esse ator, em uma ficção, em
um sonho de paixão, possa forçar sua alma a sofrer com o seu próprio pensamento
a ponto de empalidecer-lhe a face; lágrimas em seus olhos, o aspecto conturbado,
a voz entrecortada, e todo os seus gestos adaptando-se em formas à concepção de
seu espírito? E tudo isso por nada! Por Hécuba? Quem é Hécuba para ele ou ele
para Hécuba, para que a chore?
Hamlet, ato II, cena II.
Shakespeare descreve como ator a tentativa do
homem que agita-se ao fazer viver uma personagem inventada... Interpretar é
antes de tudo insinuar-se no conhecimento da coisa a representar. É formar um
conceito. É em seguida ter o poder de fazer entrar à força sua própria alma
nesse conceito: force his soul... to his own conceit. A inteligência, iluminada
pela experiência e pelo raciocínio, constrói idéias coerentes e variadas. A
sensibilidade as anima e aquece. No interior e nos limites de uma concepção, a
alma trabalha-se, e desse trabalho decorre a operação misteriosa, precária,
submetida a toda espécie de circunstâncias e de particularidades, que vai
revestir com uma exatidão cada vez maior a idéia - o que Diderot denomina: um
fantasma - de formas necessárias, de signos tangíveis nos quais o espectador
reconhecerá a natureza daquilo que se passa dentro do ator suiting with forms
to his conceit... À medida que os signos afirmam-se, em precisão, em acento, em
profundidade, à medida que tomam posse do corpo e de seus hábitos, eles estimulam
por seu turno os sentimentos interiores que com uma realidade cada vez maior
instalam-se na alma do ator, preenchem-na, suplantam-na. É nesse grau do
trabalho que germina, amadurece e desenvolve-se uma sinceridade, uma
espontaneidade conquistada, adquirida, da qual se pode dizer que age como uma
segunda natureza, que inspira por seu lado as reações físicas e dá-lhes a
autoridade, a eloqüência, o natural e a liberdade.
CAR NA VALHA NA CARNE - uma experiência absurda com Teatro do Casarão para a Rua - Oficina para seleção de atores
domingo, 19 de março de 2023
Aos Atores
desconcerto
desconcerto
para Artur Gomes
o poeta é um jogador
joga com palavras
letra por letra
sílaba por sílaba
com nomes sobrenomes
universo das coisas
artifício das cores
tira um sarro com metáforas
desconcerta a lírica
a métrica a fonética
e os significados
onde não tem sentido
enfeitiça o sub-mundo
enaltece o desdentado
Federika Lispector
o poeta enquanto coisa
O
poeta enquanto coisa
Cristina Bezerra me disse
que trepo no corpo
das palavras
na desconstrução da normalidade
dos seus significados
o poema é um jogo de dedos
um lance de dados
e o poeta enquanto coisa
é mediúnico
amoral em sua estética
na transa poética
tudo o que sai do corpo
é o que já foi incorporado
Artur Gomes
quarta parede
Quarta
parede
Origem e significado
A origem da expressão é incerta, mas presume-se
que o conceito tenha surgido na Idade Média com a aplicação do Teatro
Saltimbanco, onde os atores atuavam em uma carroça, e assim podiam se deslocar
por outros vilarejos, uma espécie de teatro ambulante, e a peça ocorria
levantando uma lona lateral, criando uma abertura para visão geral do evento. A
aplicação dava-se cada vez que, erguendo esta lona (a quarta parede), o
espectador tinha acesso a imagem da peça encenada, geralmente com até, no
máximo, quatro personagens atuando ao mesmo tempo.
Logo em seguida, pela formação do Teatro
Elizabethano, na côrte da Rainha Elizabeth I (Londres, Inglaterra), onde o
teatro era realizado para a nobreza como forma de distração e era preparada,
muitas vezes, com intuito de se atacar ou criticar, de forma direta atitudes,
comportamentos, da própria nobreza na côrte. Essas críticas nem sempre
mostravam o nome do nobre, mas o fazia de forma satírica, confrontando-os e
questionando-os, no entanto, as cenas eram preparadas, escrachadas, tinha como
objetivo um ataque, mas de forma leve, tão leviana, que acabava por virar
comédia. Todos riam, sabiam que se falava da côrte e seus participantes. Às
vezes, sabiam sobre quem estava sendo satirizado, mas aquela conduta dos
atores, embora muitas vezes com maldade, deixava a crítica um tanto sarcástica,
outras vezes sutil, mas sempre procurando deixar a peça em tom crítico direto,
mas completamente debochada em relação a quem a assistia.
O teatro assume a apresentação como se fosse uma
caixa, surgindo o teatro tradicional como conhecemos e a quarta parede, de
certa forma cai, deixando de existir e dando lugar àquela plateia que assiste
passivamente, quer dizer a plateia evita mexer-se e, supostamente, assiste à
peça sem se deixar envolver emocionalmente com os atores, mas nem sempre
ocorria. Lembremos que algumas pessoas era bufões, comiam durante o espetáculo,
causando um barulho que acabava por desconcentrar, outros com o uso do leque,
outros com movimentos de pernas para chamar a atenção, daí para o ator não se
desconcentrar com tosses, com movimentos corporais da plateia em que se
estabelece a quarta parede, imaginária, tanto para o grupo de atores, quanto
para a plateia, conduzindo o grupo de atores a um estudo e domínio próprio mais
profundo para se condicionar em representar sem ter a influência da plateia ou
minimizando-a e exigindo uma concentração maior durante a encenação, século
XVIII, com as teorias propugnadas por Diderot, quando este aponta:
"Então, caso façais uma composição, ou caso
representeis, pensai no espectador apenas como se este não existisse. Imaginai,
na borda do teatro, uma enorme parede que vos separe da plateia; representai
como se a cortina não se levantasse".[1]
A expressão também é usada em outros mídia, como
cinema, videogames, quadrinhos,televisão e literatura, geralmente para se
referir à divisória entre a ficção e a audiência.
A quarta parede é parte da suspensão de descrença
entre o trabalho fictício e a plateia. A plateia normalmente aceita
passivamente a presença de uma quarta parede sem pensar nela diretamente,
fazendo com que uma encenação seja tomada como um evento real a ser assistido
(teatro tradicional). A presença de uma quarta parede é um dos elementos mais
bem estabelecidos da ficção e levou alguns artistas a voltarem a sua atenção
para ela como efeito dramático. Por exemplo, na peça The Fourth Wall de A.R.
Gurney, quatro personagens lidam com a obsessão da dona de casa, Peggy, por uma
parede em branco na sua casa. Lentamente é desenvolvida uma série de clichês
teatrais, enquanto toda a mobília e a ação em cena vão cada vez mais se
dirigindo à suposta quarta parede.
Derrubando a quarta parede
O ato de derrubar a quarta parede é usado no
cinema, no teatro, na televisão e na arte escrita, e tem origem na teoria do
teatro épico de Bertolt Brecht, que ele desenvolveu a partir e, curiosamente,
para contrastar com a teoria do drama de Constantin Stanislavski. Refere-se a
uma personagem dirigindo a sua atenção para a plateia, ou tomando conhecimento de
que as personagens e ações não são reais. O efeito causado é que a plateia se
lembra de que está vendo ficção e isso pode eliminar a suspensão de descrença.
Muitos artistas usaram esse efeito para incitar a plateia a ver a ficção sob
outro ângulo e assisti-la de forma menos passiva. Brecht estava ciente de que
derrubar a quarta parede iria encorajar a plateia a assistir a peça de forma
mais crítíca - o chamado Efeito de Alienação.
Derrubar a quarta parede de forma súbita é um
recurso bastante usado para um efeito humorístico nonsense, já que tal efeito é
inesperado em ficções narrativas e afins. Alguns acreditam que derrubar a
quarta parede cause um distanciamento da suspensão de descrença a ponto de
contrastar com o humor de uma história. No entanto, quando usada de forma
consistente ao longo da história, é geralmente incorporada ao estado passivo da
plateia.
Essa exploração da familiaridade de uma plateia
com as convenções da ficção é um elemento-chave em muitos trabalhos definidos
como pós-modernistas, que descontroem as regras preestabelecidas da ficção. A
ficção que derruba ou diretamente se refere à quarta parede muitas vezes também
usa outros recursos pós-modernistas, como a metalinguagem (Teatro
Contemporâneo).
O recurso é muito usado no teatro improvisado,
onde a plateia é convidada a interagir com os atores em certos pontos, como
para escolher a resolução de um mistério. Nesse caso, os espectadores são
tratados como testemunhas da ação em andamento, tornando-se "atores"
e atravessando a quarta parede.
A quarta parede também é usada como parte da
narrativa, quando a personagem descobre que faz parte de uma ficção e 'derruba
a quarta parede' para estabelecer um contato com a audiência.[2] Isso ocorre em
filmes como O Último Grande Herói e A Rosa Púrpura do Cairo, onde personagens
saem dos filmes que habitam e espectadores adentram a película; O Show de
Truman, onde o personagem-título percebe que sua vida é uma espécie de reality
show filmado em um gigantesco estúdio; e o livro O Mundo de Sofia, onde os
personagens de um livro sendo escrito percebem seu caráter ficcional e tentam
descobrir como conseguir sua liberdade. Nesse caso, a 'quarta parede' que a
personagem derruba permanece como parte da narrativa em si, e a parede entre a
plateia real e a ficção permanece intacta. Há casos também em que a criatura
encontra o criador, como no período em que Grant Morrison escrevia as histórias
em quadrinhos do Homem Animal. Histórias como essas não derrubam efetivamente a
quarta parede - apenas se referem a esse recurso.
Alguns personagens são notórios por quebrar a
quarta parede, como Deadpool da Marvel Comics, Goku no fim de cada episódio de
Dragon Ball Z (Majin Boo e Gohan também fizeram), Pinkie Pie de My Little Pony:
A Amizade é Mágica [3] , Frank Underwood, de House of Cards e a série de games
Metal Gear: Solid (Onde alguns personagens olhavam para a tela e interagiam com
o jogador).
Referências
BORIE, Monique; ROUGEMONT, Martine de; SCHERER,
Jacques. Estética teatral: textos de Platão a Bertolt Brecht, pg. 167. Tradução
de Helena Barbas. 2ª edição, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004]
NOVAS POSSIBILIDADES EM METALINGUAGEM
The Most Fourth Wall-Breaking Moments in
Television History
Teatro do Oprimido
Teatro do oprimido
Teatro do Oprimido (TO)É um método teatral que
reúne exercícios, jogos e técnicas teatrais elaboradas pelo teatrólogo
brasileiro Augusto Boal. Os seus principais objetivos são a democratização dos
meios de produção teatral, o acesso das camadas sociais menos favorecidas e a
transformação da realidade através do diálogo (tal como Paulo Freire pensou a
educação) e do teatro. Ao mesmo tempo, traz toda uma nova técnica para a
preparação do ator que tem grande repercussão mundial.
No começo dos anos sessenta, Boal era diretor do
Teatro de Arena de São Paulo. Um dia, durante uma viagem pelo nordeste, estavam
apresentando para uma liga camponesa um musical sobre a questão agrária que
terminava exortando os sem terras a lutarem e darem o sangue pela terra. Ao
final do espetáculo um sem terra convidou o grupo para ir enfrentar os jagunços
que tinham desalojado um companheiro deles. O grupo recusou e, neste momento,
Boal percebeu que o teatro que realizava dava conselhos, que o teatro deveria
ser um diálogo e não um monólogo.
Até este momento tudo não passava de uma ideia a
ser desenvolvida. Somente em 1971 no Brasil, nasceu a primeira técnica do Teatro
do Oprimido: o Teatro Jornal. Continuando a crescer, o TO desenvolve
estabelecer um diálogo entre as Nações Indígenas e os descendentes de espanhóis
na Colômbia, na Venezuela, no México... Hoje, essas formas são usadas em todos
os tipos de diálogos.
Na Europa, o TO se expandiu e veio à luz o
Arco-Íris do Desejo — inicialmente para entender problemas psicológicos, mais
tarde para criar personagens em quaisquer peças. De volta ao Brasil, nasceu o
Teatro Legislativo, para ajudar a transformar o Desejo da população em Lei — o
que chegou a acontecer 13 vezes. Agora, o Teatro Subjuntivo está, pouco a
pouco, vindo à luz.
O TO era usado por camponeses e operários;
depois, por professores e estudantes; agora, também por artistas, trabalhadores
sociais, psicoterapeutas, ONGs. Primeiro, em lugares pequenos e quase
clandestinos. Agora, nas ruas, escolas, igrejas, sindicatos, teatros regulares,
prisões...
Além da arte cênica propriamente, também existe
a finalidade política da conscientização, onde o teatro torna-se o veículo para
a organização, debate dos problemas, além de possibilitar, com suas técnicas, a
formação de sujeitos sociais que possam fazer-se veículo multiplicador da
defesa por direitos e cidadania para a comunidade onde o Teatro do Oprimido
está a ser aplicado.
Aplicado no Brasil, em parceria com diversas
ONGs, como as católicas Pastoral Carcerária[1] e CEBs (Comunidades Eclesiais de
Base), ou movimentos sociais, como o MST, as técnicas de Boal ganharam mundo,
sendo suas obras traduzidas em mais de 20 idiomas, e ganhando aplicação por
parte de populações oprimidas nas mais diversas comunidades, como recentemente
entre os palestinos[2]
A Lei nº 13.560, de 21 de dezembro de 2017,
instituiu o dia 16 de março, como "Dia Nacional do Teatro do
Oprimido", em homenagem à data de nascimento de seu criador, o teatrólogo
Augusto Boal[3].
Índice
1 Teatro do Oprimido
1.1 Teatro-Jornal
1.2 Teatro Imagem
1.3 Teatro Invisível
1.4 Teatro-Fórum
1.5 Arco-Íris do Desejo
1.6 Teatro Legislativo
1.7 Evolução: a Estética do Oprimido
2 Notas
3 Referências
4 Ligações externas
Teatro do Oprimido
O Teatro do Oprimido é um método estético que
sistematiza Exercícios, Jogos e Técnicas Teatrais que objetivam a desfiguração
física e intelectual de seus praticantes, e a democratização do teatro.
O TO parte do princípio de que a linguagem
teatral é a linguagem humana que é usada por todas as pessoas no cotidiano.
Sendo assim, todos podem desenvolvê-la e fazer teatro. Desta forma, o TO cria
condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios de produzir teatro
e assim amplie suas possibilidades de expressão. Além de estabelecer uma
comunicação direta, ativa e propositiva entre espectadores e atores.
Dentro do sistema proposto por Boal, o
treinamento do ator segue uma série de proposições que podem ser aplicadas em
conjunto ou mesmo separadamente.
Cumpre ressaltar que todas as técnicas
pressupõem a criação de grupos, onde o Teatro do Oprimido terá sua aplicação.
Teatro-Jornal
O Teatro-Jornal foi uma resposta estética à
censura imposta, no Brasil, no início dos anos 70, pelos militares, para
escamotearem conteúdos, inventarem verdades e iludirem. Nesta técnica,
encena-se o que se perdeu nas entrelinhas das notícias censuradas, criando
imagens que revelam silêncios. Criada em 1971, no Teatro de Arena de São Paulo,
esta técnica foi muito utilizada na época da ditadura militar brasileira, para
revelar informações distorcidas pelos jornais da época, todos sob censura
oficial. Ainda hoje é usada para explicitar as manipulações utilizadas pelos
meios de comunicação.[4]
Teatro Imagem
No Teatro-Imagem, a encenação baseia-se nas
linguagens não-verbais. Essa foi uma saída encontrada por Boal para trabalhar
com indígenas, no Chile, de etnias distintas com línguas maternas diversas, que
participavam de um programa de alfabetização e precisavam se comunicar entre
si. Esta técnica teatral transforma questões, problemas e sentimentos em
imagens concretas. A partir da leitura da linguagem corporal, busca-se a compreensão
dos fatos representados na imagem, que é real enquanto imagem. A imagem é uma
realidade existente sendo, ao mesmo tempo, a representação de uma realidade
vivenciada.[5]
Teatro Invisível
O Teatro-Invisível que, sendo vida, não é
revelado como teatro e é realizado no local onde a situação encenada deveria
acontecer, surgiu como resposta à impossibilidade, ditada pelo autoritarismo,
de fazer teatro dentro do teatro, na Argentina. Uma cena do cotidiano é
encenada e apresentada no local onde poderia ter acontecido, sem que se
identifique como evento teatral. Desta forma, os espectadores são reais
participantes, reagindo e opinando espontaneamente à discussão provocada pela
encenação.[6]
A preparação do Teatro Invisível deve ser como a
de uma cena normal, reunindo os principais elementos: atores interpretando
personagens com caracterizações, ideia central; deve haver um roteiro
pré-estabelecido, apresentando princípio, meio e fim e que deve ser ensaiado. A
diferença consiste em ser uma modalidade que não revela ao público tratar-se de
uma representação.
Pode ou não ser uma representação pessoal,
variando em vários aspectos como econômico e social.
Teatro-Fórum
A dramaturgia simultânea era uma espécie de
tradução feita por artistas sobre os problemas vividos pelo povo. Aí nasceu o
Teatro-Fórum, onde a barreira entre palco e platéia é destruída e o Diálogo
implementado. Produz-se uma encenação baseada em fatos reais, na qual
personagens oprimidos e opressores entram em conflito, de forma clara e
objetiva, na defesa de seus desejos e interesses. No confronto, o oprimido
fracassa e o público é estimulado, pelo Curinga (o facilitador do Teatro do
Oprimido), a entrar em cena, substituir o protagonista (o oprimido) e buscar
alternativas para o problema encenado.[7]
Arco-Íris do Desejo
Nos anos de 1980, na França, Augusto Boal e
Cecília Boal se deparam com opressões ligadas à subjetividade, sem relação com
uma agressão física ou um impedimento concreto na vida cotidiana. Um arsenal de
técnicas que analisam os opressores internalizados, o Arco-Íris do Desejo, foi
a resposta a esta demanda. Conhecido como Método Boal de Teatro e Terapia, é um
conjunto de técnicas terapêuticas e teatrais utilizadas no estudo de casos onde
os opressores foram internalizados, habitando a cabeça de quem vive oprimido
pela repercussão dessas ideias e atitudes.[8]
Teatro Legislativo
No Teatro Legislativo, além das intervenções na
ação dramática, os espectadores também são estimulados a escreverem propostas
de leis, que visem à resolução do problema apresentado. Essas propostas são
recolhidas e entregues à Célula Metabolizadora: equipe formada por um
especialista no tema encenado, um assessor legislativo e um advogado com
experiência na área, cuja função é fazer a "metabolização" das propostas,
ou seja, analisá-las e sistematizá-las, para que sejam novamente encaminhadas à
plateia para discussão e votação, ao final da apresentação, quando se instaura
a Sessão de Teatro Legislativo.
Através dessa iniciativa foram produzidas até
2008 doze leis municipais, um decreto legislativo, uma resolução plenária, duas
leis estaduais e dois projetos de lei em tramitação, na cidade e no estado do
Rio de Janeiro, todas oriundas da interação de grupos populares com a
população. Esses resultados demonstram a viabilidade da democratização da
política através do teatro, que estimula o exercício da democracia direta e
participativa.
Evolução: a Estética do Oprimido
As iniciativas de Boal e do CTO-Rio, dentro dos
propósitos do Teatro do Oprimido vêm sendo ampliadas constantemente. Assim,
integrando o Sistema, está sendo desenvolvida a "Estética do
Oprimido". Esta tem por fundamento a certeza de que somos todos melhores
do que pensamos ser, capazes de fazer mais do que realizamos, porque todo ser
humano é expansivo.
A proposta é promover a expansão da vida
intelectual e estética de participantes de Grupos Populares de Teatro do
Oprimido, evitando que exercitem apenas a função de ator, que representa
personagens no palco. Os integrantes desses grupos são estimulados, através de
meios estéticos, a expandirem a capacidade de compreensão do mundo e as
possibilidades de transmitirem aos demais membros de suas comunidades - bem
como aos de outras - os conhecimentos adquiridos, descobertos, inventados ou
re-inventados. (2007).
Notas
BOAL, Augusto - Teatro do oprimido e outras
poéticas políticas. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2005. Edição
revista; (ISBN 85-200-0265-X)
BOAL, Augusto - "Técnicas Latino-Americanas
de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário". São Paulo:
Hucitec, 1975.
BOAL, Augusto - "Stop: ces’t magique".
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.
BOAL, Augusto - "O arco-íris do desejo:
método Boal de teatro e terapia". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1990.
BOAL, Augusto - "Teatro legislativo",
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.
BOAL, Augusto - "Jogos para atores e
não-atores". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
BOAL, Augusto - "O teatro como arte
marcial". Rio de Janeiro: Garamond, 2003.
BOAL, Augusto - "A Estética do
Oprimido". Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
Balbúrdia PoÉtica - 23 de setembro
Balbúrdia PoÉtica – Por Ética Dia 23 – setembro – das 18 às 22h Coffe Break – Av. Henrique Valladares, 17ª lista dos poetas convidados para ...
-
foto: Ricardo Prado Conheci a poesia de José Inácio Vieira de Melo através de seu maravilhosos livro Sete, pelas redes acompanho atent...
-
Intervenção poética no Museu de Londrina/PR. Conheci Dinovaldo Gilioli lá pelo idos dos anos de 1980, fez parte de um seleto grupo de ...






