quinta-feira, 28 de agosto de 2025

TransPoÉticas - Coletânea de Poetas Vivos


               TransPoÉticas

       Coletânea de Poetas Vivos

 

mudança

 

com  eu posso esconder

quando a tristeza é quem me vê

quando a própria vai além

e me leva de refém

de forma crua , uma mudança nua

com pessoas que eu não conheço

visões que eu não me lembro

cheiros que eu não conheço

listas que eu não fui membro

caminhos que eu não andei

corações que nunca amei

nostalgia que me deixa leve

por palavras vãs

que me trazem paz

do furacão que me desfaz

e que cresce, cresce e cresce

me corrói e me destrói

e me leva

cada vez mais para o centro

e eu não dou um passo

não faço um movimento

não grito por ajuda

não choro e nem pergunto

de quem foi a culpa

E mesmo ainda temendo e tremendo

do tremendo vazio

que se faz aqui dentro

procuro alívio nas brechas do sentimento

tentando controlar tudo o que ainda

dói

e como dói.

 

Yasmin Armaroli

 

Obs.: Yasmin é uma menina de 13 anos que conheci ontem na minha noite dos 77 no Carioca Bar, é estudante do Colégio Estadual João Pessoa, em Campos dos Goytacazes-RJ, deu tio Eduardo Armaroli e sua mãe Renata Armaroli, sãos os proprietários do Carioca Bar, que fizeram questão  que ela fosse ontem me conhecer. Com este poema ela ganhou o Festival de Poesia do C. E. João Pessoas.

 

Artur Gomes

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Artur Gomes Fulinaimagens

https://fulinaimagens.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Artur Gomes 77

 

27 de agosto
com muito gosto
fazer setenta e sete
outra coisa me disse
fulinaíma
pra definir o que faço
o traço a cada compasso
pensado sentido vivido
estando inteiro
não par/ti/do
a língua ainda
entre/dentes
a faca
ainda mais afiada
a carNAvalha in/decente
escre/v(l)er
é tudo o que posso
pra desafinar os contentes
desempatar de/repente
o jogo dos reles bandidos
é tudo o que tenho feito
por mais que tenha sofrido
nas unhas dos dedos
nos nervos
na carnadura dos ossos

Artur Gomes

Hoje Balbúrdia PoÉtica especial
no Carioca Bar - Rua Francisca Carvalho de Azevedo, 17
Parque São Caetano - Campos dos Goytacazes-RJ
Espero vocês lá, a partir das 18h

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Artur Fulinaimagens
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terça-feira, 26 de agosto de 2025

primeiras parcerias com Ciranda

Minhas primeiras parcerias com Paulo Ciranda, criadas durante os anos de 1970, época em que várias cidades do Estado do Rio de Janeiro realizamos Festivais de Música.  

Caminho da Paz vencedora do Festival de Música de São Fidélis-RJ - 1974

CAMINHO DA PAZ      

   (Artur Gomes/Paulo Ciranda)


lá por onde vim, o sol nasceu

e a sua luz, foi quem me aqueceu

lá a luz da noite era manhã

toda claridade era mente sã

 

as estrelas, as estrelas

deram bênção sobre mim

as estrelas, as estrelas

eram versos de onde vim

 

sim, quando criança, lá me perdeu

uma doce mão, lá me esqueceu

e hoje eu me encontro vendo crescer

assim eu me entendo, quando a escrever

 

as estrelas, as estrelas

são leituras que encontrei

navegantes criaturas

nos seus versos caminhei

 

e hoje sei que o poeta já escreveu

e sendo o poeta, nunca esqueceu

o amor de quem tanto é capaz

e eu sei do caminho que é minha paz

 

as estrelas, as estrelas

são leituras que guardei

e hoje mesmo, nas estrelas

e no amor me conquistei

             Deusas de Marfim

Minha primeira parceria com Paulo Ciranda. Deusas de Marfim foi inspirada em Angélica, minha primeira sereia que conheci no acampamento em Guaxindiba no carnaval de 1974. Nosso namoro fugaz acontecia nos bosques e florestas próximos ao acampamento. Teve sua primeira publicação no Jornal do Comércio, que era editado por Edgard Coelho dos Santos, pai do nosso querido amigo Hélio de Freitas Coelho.

DEUSAS DE MARFIM


ruas e florestas

estrelas incendiárias

bosques e serestas

luas imaginárias


ruas e florestas

céus inavegáveis

bosques e serestas

vozes inconsoláveis


cegas que não olharam

surdas que não ouviram

umas que enxotaram

outras que consumiram


ruas e florestas...


ecos que se fecharam

egos que emudeceram

janelas que não se abriram

portas que se bateram


ruas e florestas...


ouvidos que não ouviram

olhos que escureceram

bocas que não amaram

do amor se esconderam


ruas e florestas... 

Artur Gomes/Paulo Ciranda / 1974

(Nos encontramos na rua 21 de abril e você me deu um recorte de jornal com esse poema, melodiei e assim começamos nossa parceria...

Abraços -  Ciranda)


Nação Goytacá

Artur Gomes

www.suorecio.blogspot.com


Juras secretas em alta voltagem

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Poeta maldito é termo utilizado para referir poetas que constroem uma obra “rebelde” mesmo em face do que é aceito pela sociedade, considerada como meio alienante e que aprisiona os indivíduos nas suas normas e regras. Rejeitam explicitamente regras e cânones. Rejeição que se manifesta-se também, geralmente, com a recusa em pertencer a qualquer ideologia instituída.

A desobediência, enquanto conceito moral exemplificado no mito de Antígona é uma das características dos poetas malditos. Filiam-se a essa tradição nomes (com as variantes óbvias de estilo e época) como os de Gregório de Mattos, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski, Álvares de Azevedo, Jorge Mautner, Waly Salomão dentre outros, sem falar no trio mais conhecido mundialmente da “parafernália” poética: Verlaine, Baudelaire e Rimbaud.

O ator, produtor, videomaker e agitador cultural que é Artur Gomes acaba de lançar “Juras secretas”, reunião de 100 poemas a maior parte deles sobejando a temática do amor visto na perspectiva de paixão avassaladora. Mas há também, aqui e ali a presença, sempre em perspectiva ousada e radical, de poemas que vão do doce e suave sentido do amor, ao cruel, do libidinoso, à poesia de cunho social sempre expressando indignação, desobediência e transgressão. Com efeito o homem é uma metralhadora giratória a espalhar e espelhar aquilo, que nos vai por dentro e que guardamos em “segredo” de estado. Com a palavra o poeta:

Jura de número 34

porque te amo / e amor não tem pele / nome ou sobrenome / não adianta chamar / que ele não vem / quando se quer / porque tem seus próprios códigos / e segredos/mas não tenha medo / pode sangrar pode doer / e ferir fundo / mas é a razão de estar no mundo / nem que seja por segundo / por um beijo mesmo breve / por que te amo / no sol no sal no mar na neve

Jura 63

não sei se escrevo tanto / não sei se escrevo tenso / um fio elétrico suspenso / com tanta coisa no Ar / não sei se olho em teu olho / para encontrar a entrada / da porta da tua casa / onde a palavra estiver / não sei se pinto um Van Gogh / ou escrevo um Baudelaire

Jura 69

há muito tempo / não morro mais aqui / minha cidade é desbotada / há muito perdeu o brilho / na minha voracidade o sol é claro / e a arte que preparo / é o tiro que disparo / é a arma que engatilho.

Jura 70

meto meus dedos cínicos / no teu corpo em fossa / proclamando o que ainda possa / vir a ser surpresa / porque meu amor não tem essa / de cumer na mesa / é caçador e caça mastigando na floresta / todo tesão que resta desta desta pátria indefesa / ponho meus dedos cínicos / sobre tuas costas / vou lambendo bostas / destas botas neo burguesas / porque meu amor não tem essa / de vir a ser surpresa / é língua suja e grossa / visceral ilesa / pra lamber tudo que possa / vomitar na mesa / e me livrar da míngua / desta língua portuguesa.

Com efeito, forçoso concordar com Tanussi Cardoso, em Posfácio ao livro, que a poesia de Artur Gomes é “uma poesia do livre desejo e do desejo livre. Nela, não há espaço para o silêncio: é berro, uivo, canto e dor. Pulsão. Textura de vida. Uma poesia que arde (em) seu rio de palavras”.

 

Artur Gomes

Juras Secretas

Editora Penalux – 2018

Leia mais em www.secretasjuras.blogspot.com


            O golpe que permanece


Graças à Polícia Federal, vivemos uma semana incomum, dessas que mereceriam registro em ata como patrimônio da vida pública. A sequência de revelações foi de tirar o fôlego de mergulhador de águas profundas: Malafaia, afinal, encontrou a rola que Boechat lhe prescrevera anos atrás; o sempre cortês Eduardo Bananinha brindou o próprio pai com um educadíssimo VTNC, gesto que a crônica familiar há de registrar como prova de afeto filial; e descobriu-se que Jair aplicou trinta milhões de reais, de modo impecavelmente legal, em CDI nos últimos dois anos. Não foi o bastante, pois a PF apurou que, além desse investimento limpíssimo, ele recebeu quarenta e quatro milhões de reais em sua conta pessoal, quase metade por PIX, enquanto Bananinha e Carluxo, mais industriosos, somaram oito milhões em ganhos próprios. O filho chocolateiro ficou à margem dessa partilha.

Foi, porém, num acesso de fúria pueril, que Bananinha protagonizou o episódio de maior densidade política. Ao ser acusado de sua imaturidade evidente, reagiu com um zap-zap que fez tremer a moldura da foto oficial no salão da família: “Você falaria isso do Temer?”

O Brasil, sempre disposto ao riso, amanheceu coberto de memes, de norte a sul, sem perceber o essencial. O esperneio infantil não foi simples reflexo de defesa, mas confissão. Como bom psicanalista de botequim, como todo brasileiro-raiz, vejo aí um ato falho, daqueles em que a alma fala antes que o dedo consiga digitar. Num átimo, Bananinha entregou que Michel Temer é o símbolo, o ícone, a inspiração do projeto golpista. O nome escapou não por descuido, mas porque estava ali, na superfície, pronto para emergir: Temer, o homem a ser seguido, o guru supremo do golpe. O verdadeiro mito.

O que salta desse lapso babananeiro é cristalino: sem o golpe de 2016 não haveria a tentativa de golpe de 2022 a 2025, sim, 2025. A tentativa não cessou; prossegue altiva, incólume, avançando como se nada houvesse acontecido. Não se trata de metáfora nem de paranoia conspiratória, mas de linha reta, sequência lógica, fato incontornável.

Basta lembrar que, em 2023, o TRF-1 arquivou o processo das supostas “pedaladas fiscais”, reconhecendo que pedalada alguma existiu. O álibi jurídico que serviu de pretexto para derrubar Dilma Rousseff esfarelou-se por completo, revelando-se encenação tosca, embora eficaz. O revólver que matou a democracia foi identificado, periciado e reconhecido como verdadeiro, mas os dedos que puxaram o gatilho seguem intactos, impunes, conspirando nas sombras do poder.

Golpe dado, Michel Temer foi o síndico perfeito da grande liquidação nacional. Em menos de dois anos, executou com eficiência implacável todo o cardápio exigido pela Faria Lima e, sobretudo, por Washington. Rasgou a legislação trabalhista, golpeou as aposentadorias, esvaziou políticas públicas vitais como o SUS e o Bolsa Família e, ainda mais, sequestrou o orçamento com o teto de gastos, mecanismo de austeridade tão cruel quanto inútil, concebido para asfixiar qualquer projeto de desenvolvimento.

Das mais profundas catacumbas do neoliberalismo entreguista, trouxe de volta Pedro Parente para completar a obra, doar a Petrobrás, entregar o pré-sal e atrelar o preço dos combustíveis brasileiros ao humor das bolsas internacionais de petróleo. Parente, que no governo FHC já havia transferido ao capital privado a parte mais rentável do setor elétrico, a distribuição, regressou com louros, repetindo o método, exibindo o mesmo desprezo pelo interesse público e o amor unilateral pelos interesses dos endinheirados.

Para os Estados Unidos, Temer entregou tudo o que estava na pauta e foi além, trabalhando ativamente para encarcerar Lula, retardar a integração Sul-Sul e destruir qualquer projeção autônoma do Brasil no continente, tratado em Washington sem disfarces como “nosso quintal”. Se ainda não o é, Temer merece ser celebrado em feriado nacional como o “Funcionário do Século dos EUA”.

Não por acaso, seus sócios políticos no exitoso golpe, os donos de partidos Gilberto Kassab, Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto, os operadores Eduardo Cunha e Arthur Lira e a ala fardada sempre disponível, embarcaram todos no governo Bolsonaro. Surpreendentemente, ou talvez sem qualquer surpresa, são exatamente os mesmos personagens centrais na tentativa de golpe comandada por Bolsonaro. Também não podemos deixar de fora os financiadores, principalmente o rentismo da Faria Lima e o ogronegócio; tampouco os sustentadores jurídicos Brasil afora, ancorados em instâncias inferiores altamente fascisto-militantes. Por sorte ou destino, o Supremo, que foi vacilante no golpe de 2016, tem sido atualmente fiador e garantidor da democracia.

Bolsonaro é um serial criminal, dono de uma ficha policial tão vasta que poderia preencher volumes encadernados. Há motivos de sobra para vê-lo atrás das grades: crimes de genocídio na pandemia, corrupção miúda e repulsiva, quarenta e quatro milhões de reais que brotaram em sua conta em apenas três anos, além de uma coleção de imóveis comprados a dinheiro vivo. Mas, alvíssaras, será preso apenas por tentativa de golpe.

Enquanto isso, os que de fato derrubaram um governo legítimo, mergulhando milhões de brasileiros na miséria e saqueando o Estado em favor de interesses estrangeiros, permanecem livres, elegantes, circulando com naturalidade por coquetéis, lamentavelmente não-molotovs, entre Brasília e Miami.

Enquanto os agentes do golpe de 2016 não forem julgados e punidos, a democracia brasileira continuará sendo um castelo de cartas à mercê do vento. Temer e seu exército de conspiradores são o verdadeiro núcleo do problema. Bolsonaro não é causa, mas consequência. Não é arquiteto, mas pedreiro de obra pronta. Sem punir 2016, não haverá paz democrática.

Prender Bolsonaro sem tocar em Temer e seus cúmplices é como condenar o ladrão de galinhas e condecorar o assaltante do Banco Central. É chamar de justiça o que não passa de encenação, deixando o crime original intacto, pronto para ser repetido.

No fim das contas, a frase de Bananinha vale mais do que qualquer relatório da Polícia Federal: “Você falaria isso do Temer?”

Sim, Eduardo. Falaremos. E esperamos ser ouvidos. Falaremos até que o país desperte e compreenda que, sem extirpar o golpe de 2016 e seus beneficiários, nenhuma eleição, nenhum Lula, nenhum Xandão, nenhuma prisão, nenhum PIX apreendido salvará a democracia.

Edward Magro

a poesia liberada de artur gomes

 

A poesia liberada de Artur Gomes

 

Há uma passagem, em Auto do Frade, de João Cabral, que me chamou a atenção:

“- Fazem-no calar porque, certo, sua fala traz grande perigo.

- Dizem que ele é perigoso mesmo falando em frutas e passarinhos”.

Vislumbro aí  uma espécie de definição do alto poder da poesia, do poeta, da arte em geral: deixar fluir uma energia de protesto e indignação, crítica e iluminação da existência, qualquer que seja o pretexto ou o ponto de partida.

Por exemplo -: Suor & Cio, novo poemário de Artur Gomes. Na sua primeira parte (Tecidos sobre a Terra), lemos um testemunho direto sobre as misérias e sofrimentos na região de Campos dos Goytacazes, interior fluminense. Não se canta amorosamente as lavouras de cana e grandes usinas, os aceiros e céus de anil. Ao contrário. Ouvimos uma fala que “traz grande perigo”, efetivamente, ao denunciar – com aspereza e às vezes até com extremo rancor – a situação histórico-social,  bruta e feroz, selvagem e primitiva, da exploração do homem no contexto do latifúndio e da monocultura.

 

“usina mói a cana

o caldo  e o bagaço

usina mói o braço

a carne o ossso.”

 

Mas essa poesia dura, cortante e aguda, mantém igualmente a sua força de transgressão – continua revolucionária e perigosa – mesmo quando tematiza (principalmente em Tecidos sobre a Pele, segunda parte do livro) as frutas, ou o prazer sexual, os seios, o carnaval, o mar, e os impulsos eróticos. Por detrás dos elementos bucólicos e paradisíacos (só nas aparências, bem entendido), eis que explode o censurado o reprimido, o que não tem vergonha e nem nunca terá:

 

“arando o vale das coxas

com o caule da minha espada

no pomar das tuas pernas

eu planto a língua molhada”.

 

Por isso, frequentemente os poemas se debruçam sobre o próprio ofício do poeta, e sobre o próprio sentido do fazer artístico. Ofício de artista, experiência de poeta: presença do risco da violação das normas injustas: carnavalizando, desbundando a troup-sex, infernizando o céu santificando a boca do inferno, denunciando o rufo dos chicotes, opondo-se aos d nos da vida, que controlam o saldo, o lucro e o tesão.

Os versos de Artur Gomes querem ser lidos, declamados, afixados em cartazes, desenhados em camisas. E vieram para ficar nas memória e bibliotecas da nossa gente, apesar do suor e do cios, graças ao suor e ao cio:

 

“com um prazer de fera

e um punhal de amante”.

 

Uilcon Pereira

São Paulo, julho de 1985

 

tecidos sobre a pele

ó terra incestuosa de prazer e gestos não me prendo ao laço dos teus comandantes só me enterro à fundo nos teus vagabundos com um prazer de fera e um punhal diamante

minha terra é de senzalas tantas enterra em ti milhões de outras esperanças soterra em teus grilhões a voz que tenta – avança
plantada em ti como canavial que a foice corta
mas cravado em ti me ponho a luta mesmo sabendo – o vão estreito em cada porta

 

 COITO

 

teu corpo é carne de manga

em meu pênis viril

enquanto sangra

quando beijo tua boca

                     enfurecido

rasgando por trás

o teu vestido

 

COR DA PELE

 

África sou: raíz e raça

orgia pagã na pele do poema

couro em chagas que me sangra

alma satã na carne de Ipanema

 

o negro na pele

é só pirraça

de branco

na cara do sistema

 

no  fundo é amor

que dou de graça

dou mais do que moça

no cinema

 

            CARNE PROIBIDA

 

o preço atual

proíbe

que me coma

 

mas pra ti

estou de graça

pra ti

não tenho preço

 

sou eu

quem me ofereço

a ti

:

músculo e osso

 

leva-me à boca

e completa teu almoço

 

             PROFISSÃO

 

meu ofício é de poeta

pra rimar poema e blusa

e ficar em sua pele

pelo tempo em que me usa

 

 FRUTAS

 

no vermelho dos morangos

marrom dos sapotis

na pele das romãs

carne das goiabas

polpa das amoras

licor das melancias

e tropical abacaxi

 

no gosto que elas têm de beijo

e jeito que elas têm de sexo

penetro os dentes mordendo

chupando dragando em ti

 

a terra das frutas na boca

arando o vale das coxas

com o caule da minha espada

eu planto a língua molhada

 

     PRIMEIRO AMOR

 

montado no sol a pino

no pasto do céu em chamas

eu cavaleiro menino

enlouqueci na sua cama

 

VOO SELVAGEM

 

I

 

correndo nos  cavalos

cresceu

meu coração de égua

enxertado

em ilusões de águias

 

II

 

meu coração galopa

pelo campo afora

no dorso dos poemas

na pele das esporas

 

III

 

diante da cerca

estão os bois

saciando o sexo:

corpos sob o sol

selvagens & parceiros

guiados pelo odor

amando pelo cheiro

 

IV

 

no pasto

o encontro boca a boca

a égua abriu-se toda

para que nela

entrasse

 

                 bastasse ver

o seu pulsar

           e gozo

para que o alazão também

          entre o capim

gozasse

 

V

 

com espada em riste

galopamos pradarias

e lutamos ferozmente

por dois segundos e meio

 

tua fúria era louca

e agarrei-me em tua crinas

para não cair da cama

 

mas o amor era tanto

e tanto era o prazer

quando fomos pra cama

não tinha mais o que fazer

 

          CORAÇÃO CIVIL

 

meu coração vadio

quando está no cio

faz comício

em seu quintal

vai pro bar e bebe o rio

e canta um  hino nacional

  

                       TEMPERO

 

é preciso socar certas palavras

com sal pimenta & alho

para dar o gosto

 

o ardido

que se traz na boca

é tempero mal cuidado

 

é preciso cortar o mofo

das ações de certas palavras

para quando for poema

ter ação presente

penetrar a carne

e ter sabor de gente

 

meu poema

se completa

em seu vestido

roçando sua carne

no algodão tecido

 

EXERCÍCIO

 

com um dedo

abro

a tua boca vagina

 

com dois

aperto

o bico do teu seio

 

e

 ultra passo

a porta do teu meio

 

 

TERRA

 

amada de muitos sonhos

e pouco sexo

deposito a minha boca

no teu cio

e uma semente fértil

nos teus seios como um rio

 

o que me dói

é ter-te

devorada por tantos olhos

e deter impulsos por fidelidade

 

                         POESIA

 

I

 

chegas a mim

como uma égua assanhada

não quer saber do meu carinho

só quer saber de ser trepada

 

II

 

eu te penetro

em nome do pai

do filho

do espírito santo

amém

 

não te prometo

em nome de ninguém

 

                       boca do inferno

 

por mais que te amar

seja uma zorra

eu te confesso amor pagão

não tem de ter perdão pra nós

eu quero mais é teu pudor de dama

despetalando em meus lençóis

e se tiver que me matar que seja

e ser eu tiver que te matar que morra

em cada beijo que te der amando

só vale o gozo quando for eterno

infernizando os céus

e santificando a boca do inferno

 

Artur Gomes

Do livro Suor & Cio – MVPB Edições – 1985

Musicado e gravado por Luiz Ribeiro no CD Fulinaíma Sax Blues Poesia – Fulinaíma Produções – 2000

 

O CORPO DA POESIA

                        para Artur Gomes

 

I

Seu semântico

sêmen

quântico

seu semeio

sêmen

esteio.

nos aceiros

assim e

pinci

pau

mente

assados.

nas moendas

assim

e parti

cu

lar

mente

assadas.

 

II

seu pênis poético

(caneta tinteiro

lápis grafite)

é tênis

atlético

a cada passada

por toda calçada

por todos os Campos

&

campus.

seu gozo é pôr

prazer.

 

III

E se a terra é escrava

a mulher é companheira

e se todas duas suam,

gemem, sabem

da rija verga da cana,

só você pode fazer

com cada uma

uma mágica

e tê-las como fecundas,

frutas, fibras, forças, fadas

e não só vê-las (solvê-las) absurdas,

frias, frágeis, soturnas, apáticas.

 

IV

É que o corpo da poesia

tem em si suor & cio

tem assim toque macio

e braveza de enxurrada.

 

Marco Valença

Itapuã – Salvador – Bahia

05 setembro – 1985

 

Suor & Cio – Artur Gomes

 

A cor da pele, à flor da pele, tecido da pele, à flor da terra.

É o livro de Artur Gomes:

Suor & Cio, reconduz o homem a terra. Resgata o seu suor de homem e cio da terra. É tanto amor e o tanto amar homem terra homem.

Artur tem muito da característica de João Cabral, quando fala da terra, mundo: muito de Ledo Ivo na capacidade de reunir palavras e dizer algo, que as vezes, gostaríamos de gritar com todas as forças.

Poeta de fôlego de gato. Artur é uma das grandes expressões da atual poesia brasileira.

 

Hugo Pontes

Poços de Caldas-MG – 17 junho 1987

 

Obs. Os poemas tecidos sobre a pele carne proibida estão publicados na antologia Carne Viva. Org. por Olga Savary, prmeira antologia de poesia erótica publicda no Brasil.


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