domingo, 27 de dezembro de 2020

Antônio Cunha - EntreVistas


O meu primeiro contato com esse multiartista, poeta, ator, dramaturgo  Antônio Cunha, se deu através de um outro grande artista e amigo Valdir Rocha. O motivo era a minha autorização para ele interpretar o meu poema IndGesta. Depois de me deliciar com sua maravilhosa leitura, passei a acompanhar cotidianamente toda a sua produção de vídeopoéticos, com leituras de poetas vários. Cada interpretação do Antônio Cunha me desperta um vendaval, é emoção a flor da pele. E daí me veio a ideia da criação da  Mostra Cine Vídeo De Poesia Falada que você pode assistir na página Studio Fulinaíma Produção Audiovisual

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Antônio Cunha - Diretor, dramaturgo, roteirista e ator, natural de Florianópolis, é de sua autoria, dentre outras, a peça “Dona Maria, a Louca”, que já recebeu montagens no Brasil e em Portugal, naquele país pela atriz portuguesa Maria do Céu Guerra.

Em 2004, lançou o livro “Três Dramas Possíveis”, contendo três de seus principais textos teatrais. Como ator, tem participado de diversos trabalhos no teatro e no cinema, dentre os quais destaca-se o filme ENSAIO, de Tânia Lamarca, lançado em 2013. Assinou a direção de várias peças de teatro, suas e de outros autores, como “Uma Visita”, do dramaturgo alemão Martin Walser, pelo Grupo Armação, de Florianópolis, com a qual excursionou pelo território dos Açores, em Portugal, a convite do governo local.

Iniciou a sua incursão pela ópera realizando a concepção e direção cênica de “O Diretor de Teatro” (Der Schauspieldirektor) de Mozart (2004) pela Companhia da Ilha (Florianópolis), continuando com Cavalleria Rusticana, de Mascagni (2004); A Flauta Mágica, de Mozart (2005); Rigoletto, de Verdi (2006); La Traviata, de Verdi (2007 e 2008); O Elixir do Amor, de Donizetti (2008) e O Barbeiro de Sevilha de Rossini (2009), todas pela Pró-Música de Florianópolis.

Em 2010, dirigiu com a mesma equipe a remontagem da ópera La Traviata em Florianópolis, já pela Cia. Ópera de Santa Catarina, e, em 2012, a remontagem de O Barbeiro de Sevilha apresentada na cidade de Chapecó. Em 2013, dirige a montagem da ópera Carmen, de Bizet.

 É membro da Academia Catarinense de Letras e Artes - ACLA.

 


Artur Gomes -  Como se processa o seu estado de poesia?

Antônio Cunha  – Está sempre ali. É algo latente, que requer um estímulo, seja externo, seja interno, para se manifestar. Não encaro esse estado como algo sublime ou onírico, mas como uma predisposição mental e emocional somada a uma vivência.

Artur Gomes - Seu poema preferido?

Antônio Cunha   – “O Amor”, de Maiakovsky. Para mim, é o poema de todos os poetas.

Artur Gomes - Qual o seu poeta de cabeceira?

Antônio Cunha  – Tenho sempre vários na minha cabeceira. Ultimamente Camões (com os seus Lusíadas) ocupa um lugar de destaque (comprei uma linda edição e voltei a lê-lo), mas estão juntos poetas que conheci graças à minha série Outros Autores e dos quais recebi alguns livros maravilhosos.

Artur Gomes - Em seu instante de criação existe alguma pedra de toque, algo que o impulsione para escrever?

Antônio Cunha  – Não sou um poeta profícuo. Nem mesmo publiquei enquanto poeta. Dedico mais tempo escrevendo dramaturgia do que poesia, embora a minha dramaturgia seja impregnada de poesia. Escrevo um poema vez ou outra e somente quando sinto as condições que considero propícias. E também não o exponho de imediato. Tem um tempo de maturação. Se passar bem pelo período de maturação, eu o exponho. Se não, fica lá.

Artur Gomes - Livro que considera definitivo em sua obra?

Antônio Cunha – Só tenho um livro publicado em 2004, com textos dramatúrgicos, chamado Três D®amas Possíveis. Mas tem uma obra que considero definitiva para o meu gosto pela literatura que é “O Navio Negreiro” de Castro Alves. Foi o meu primeiro porre de poesia, de literatura. Li aos 14 ou 15 anos, encontrei-o na biblioteca da escola, comecei a ler e não conseguia parar. Como era exemplar único e considerado raro, não era possível levar para casa. Então, eu passei vários dias usando o tempinho do intervalo de recreio para ir à biblioteca e ler um pouquinho de cada vez.

Artur Gomes - Além da poesia em verso, já exercitou ou exercita outra forma de linguagem com poesia?

Antônio Cunha – Acho que de alguma forma já respondi antes. A minha dramaturgia é, em alguns casos, fortemente marcada pela poesia. E também tenho escrito um ou outro conto, pequenos contos, que, no fim, passeiam muito pela prosa poética.

Artur Gomes -  Qual poema escreveu quando teve uma pedra no meio do caminho?

Antônio Cunha – Acho que todos. Mas tem um que eu escrevi quando o Golpe de 2016 no Brasil se confirmou, iniciando esse processo de miserê político, ético, econômico, enfim, a nossa derrocada enquanto Nação:


                                                           O POVO

 O povo, o povo mesmo, o grande excluído, o que move a roda,

quase sempre perde.

E, quando ganha, ou pensa que ganha, é por pouco tempo,

caso contrário, mesmo ganhando não terá paz.

Terá que lutar sempre. Não lhe será dado o direito de descansar.

Quando, desatento, resolver desmontar a última barricada;

quando, desarmado, pensar em cobrir a última trincheira,

eis que o opressor despontará com as suas bestas e os seus fantasmas, marchando vorazmente em alguma esquina,

empunhando as suas trapaças, o seu ódio e o seu champanhe,

para então tomar de volta o que cedera.

O povo, o povo mesmo, não terá paz.

Mas só ele, como mais nada ou ninguém, sabe o que é perder.

E só ele, como mais nada ou ninguém, saberá recomeçar.

 Artur Gomes -  Revisitando Quintana: você acha que depois dessa crise virótica pandêmica, quem passará e quem passarinho?

Antônio Cunha -  Espero que possamos ir para as ruas o mais breve possível, enquanto há tempo, para, a exemplo de alguns povos irmãos daqui da América do Sul, tornar a dar um bom rumo ao país. Não acredito que passem, mas terão que se acomodar. Precisamos devolver para o breu o fascismo, a brutalidade, a ignorância perversa, a cafonice desmedida, enfim, tudo o que hoje infelizmente está no pódio. E nós todos, que repudiamos tudo isso, passarinhos!

 Artur Gomes - Escrevendo sobre o livro Pátria A(r)mada, o poeta e jornalista Ademir Assunção, afirma que cada poeta tem a sua tribo, de onde ele trás as suas referências. Você de onde vem, qual é a sua tribo?

Antônio Cunha - O grande Ademir tem razão. No fundo todo artista, todo escritor, todo poeta busca a atenção e o amor da sua tribo, porque na verdade a sua tribo é a matéria-prima de sua produção. Mesmo quando saímos dela, ela não sai de nós. Eu nasci e vivo numa capital de Estado que demorou bastante para crescer enquanto cidade, mas que, quando cresceu, cresceu rápido. Florianópolis é pequena e grande ao mesmo tempo. E eu sou de uma geração que começou a experimentar o fazer artístico e literário inspirada no que recebia ou ia buscar lá fora. Depois, de alguma forma, aprendemos a misturar temperos e ingredientes locais e mesmo criar outros. Durante um bom tempo nos denominaram e nos autodenominávamos “amadores”. Isso porque a nossa geração de artistas, pelo menos aqui, não encontrava condições de viver de sua arte. Era necessário ter um emprego, um trabalho rentável, para então exercer a arte, a literatura. Isso foi superado em parte pela geração seguinte.

 Artur Gomes - Nos dias atuais o que é ser um poeta, militante de poesia?

Antônio Cunha – O poeta continua e continuará sendo o que sempre foi, ou seja, aquele que, segundo Quintana, não é um Relações Públicas, mas um Relações Íntimas (poeta e público). O poeta inspira, processa e respira. Ou seja, o que entrou se embebeu do seu interior para depois sair. No fundo todos, de alguma maneira, fazemos poesia. Quem escreve e quem lê. A diferença está no lugar que e poesia ocupa em nossas vidas. Poeta é quem faz disso um princípio, um meio e uma finalidade.

Artur Gomes - O que te emociona mais escrever ou falar poesia ?

Antônio Cunha - Tenho as mesmas sensações em ambas as situações. Todo poema surge com uma partitura própria, então o dizemos antes ou pelo menos no ato de escrevê-lo. Ele nasce sendo dito. E continuará sendo dito em todos os ritmos e tons que essa partitura permitir e até poderá ganhar outra. Ao interpretar um poema próprio ou de outro poeta, exercito essas possibilidades. No meu caso, como também sou um ator, é o que preciso fazer quando trabalho um poema ou qualquer outro texto.

Artur Gomes - Que pergunta não fiz que você gostaria de responder?

 Antônio Cunha -  Quando este pesadelo brasileiro irá acabar?

Algo que eu gostaria de responder, mas infelizmente não posso.

 

                                                             Fulinaíma MultiProjetos

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EntreVistas

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4 comentários:

  1. Duas grandes figuras, o entrevistador e o entrevistado. Que gostosa viagem pelas palavras da alma e da mente. Palavras sementes!

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  2. Perguntas instigantes e respostas surpreendentes! Excelente diálogo sobre a arte do verso, por parte destes dois artistas tão atuantes!

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  3. Adorei conhecer um pouquinho mais do meu ídolo Antônio Cunha. E amei o poema do Golpe! Forte, Direto, Incisivo, Real!
    Parabéns ao entrevistador! O entrevistado recebe meus parabéns todos os dias!

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